quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que é, como e para que ser de esquerda (3)

 


Por Flávio Aguiar

A pedra fundamental do ser de esquerda, seu como e seu para que, é a valorização republicana da cidadania, da ação coletiva, do espaço público, e da governança do Estado e de seu papel

Quando os regimes comunistas da União Soviética e seus satélites se dissolveram, ao invés do tão longamente esperado “homo sovieticus”, emergiram naquele espaço desconstruído algumas das piores máfias do planeta, oligarcas desabusados que apenas o neo-czarismo autoritário de Vladimir Putin pode enfrentar, um catolicismo ou  uma ortodoxia bizantina rançosos e carolas, políticos e políticas entusiasticamente neoliberais ou de extrema-direita... Enfim a lista de dsarrazoados é enorme, mostrando o quanto os regimes comunistas daquela região não conseguiram construir a democracia socialmente avançada que o capitalismo triunfante não só negou historicamente, mas passou a negar ainda com mais veemência nos primeiros anos da orgia neoliberal.

Sintetizando, pode-se considerar que as repúblicas socialistas tinham muito pouco, ou quase nada, de republicanas, o que roeu pela base a sustentação das políticas sociais que conseguiram promover, e turvaram a visão das suas grandes conquistas históricas, como a derrota do nazi-fascismo e a ajuda à sustentação de lutas de libertação no mundo, no Sudeste Asiático, na África e até na América Latina. Uma expressão dramática desta falta de “espírito republicano” foi a tragédia do Muro de Berlim, que, se cercava o lado Ocidental, deixava desde sempre a impressão de que os prisioneiros do cerco estavam do outro lado, o Oriental.

Por aí pode ter-se juma primeira medida de que hoje – estamos falando neste aqui e agora do século XXI em seu começo – a pedra fundamental do ser de esquerda – seu “como” e seu “para que” é a valorização republicana da cidadania, da ação coletiva, do espaço público, e da governança do Estado e de seu papel, tudo aquilo que a ideologia à solta do império dos mercados, embalada por sua vitória sobre o comunismo soviético, continua e vai continuar negando, pisoteando a cidadania, o espírito de coletividade, manietando o espaço público e buscando a privatização completa da governança do Estado, fazendo-a administradora de privilégios ao invés de garantidora de direitos.

Isto implica a valorização da democracia como um valor permanente, em todas as suas dimensões, sem perder de vista nenhuma em detrimento de outra: a dimensão direta, nas ruas e manifestações, a participativa, como no prática orçamentária que leva este nome, mas também no fortalecimento do espírito associativo, e a representativa, combatendo o descrédito com que a direita quer recobrir sempre este espaço. Isto implica a luta pelo papel regulador do Estado, em detrimento das ideias de um mercado “autorregulável”, e ao mesmo tempo a luta pela maior transparência deste mesmo Estado, e pela reversão das práticas abusivas de administração de privilégios que faz parte de seu legado histórico.

É complicado, mas este “ethos” de esquerda implica a afirmação de uma visão totalizante dos seres humanos, desconstruindo os preconceitos sexuais, religiosos, sociais, racistas, nacionais, regionais, continentais, culturais que pretendem “naturalizar” a afirmação da desigualdade e informar as políticas discriminatórias de minorias, mas também de maiorias, como hoje, por exemplo, acontece seguidamente nesta Europa de naufrágio da social-democracia, onde ao lado das políticas de discriminação preconizadas pelas extremas-direitas em vários países viceja o claro tempo pela democracia que a imposição das “políticas de austeridade” exige para sua implementação e afirmação hegemônica.

O mais complicado de tudo isto ainda é que isto exige uma contínua alimentação mútua entre análise e praxis no espaço concreto onde a inserção das múltiplas esquerdas se dá. De nada adianta, ou melhor, adianta muito pouco afirmar-se uma concepção que abstratamente prescinda, por exemplo, dos Estados nacionais, se a garantia dos direitos individuais e coletivos da cidadania se dá através do jogo dentro e entre estes mesmos Estados.
O internacionalismo que as esquerdas de modo justo preconizam não pode ser visto como uma constelação abstrata que, das alturas, quase astrologicamente, governe os passos dos povos do mundo. Este internacionalismo passa por uma construção concreta, diária e solidária, entre povos que têm uma história concreta, de choques e desigualdades, heranças de violências muitas vêzes mútuas, insufladas de fora ou de dentro, que precisam ser neutralizadas para que se avance a ideia de um compromisso entre iguais que rompa o círculo vicioso do emprego da força.

Todo este conjunto de ideias não esgota o tema sobre o que é, como e para que ser de esquerda. Espero que contribua para o prosseguimento da discussão. A boa discussão, penso eu, é aquela que levanta mais perguntas que estimulem a sua continuidade do que respostas definitivas que procurem fechar o caminho. Isto não deve barrar a ação, que deve ser continua. Mas deve situar a compreensão de que perguntar continuamente também faz parte das ações de esquerda.



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