terça-feira, 21 de outubro de 2014

A esquerda socialista e o segundo turno: reiterando a necessidade de um posicionamento ativo


Por Roberto Leher


O presente texto incorpora as reflexões realizadas por Marcelo Badaró Mattos em “A necessidade de uma política: as eleições brasileiras de 2014 e os dilemas da esquerda socialista no segundo turno” 
(http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10143:submanchete141014&catid=25:politica&Itemid=47 ), e sustenta a insuficiência da declaração do voto em Dilma, em nome do “menos pior”, e do voto nulo, porém sem apontar uma agenda para o futuro da esquerda socialista.


Em que difere o debate atual dos anteriores? Desde as eleições de 2002, a polarização final do processo eleitoral para presidente da República se deu entre o PT e o PSDB. Nas eleições de 2002, o voto crítico em Lula da Silva foi relativamente consensual. A experiência do governo Lula, entretanto, frustrou esse voto pelos motivos já longamente expostos: a manutenção dos fundamentos da política econômica (juros elevados, cambio flutuante, superavit primário, metas de inflação ...), o aprofundamento da privatização da educação (por meio do repasse de recursos públicos – FIES, ProUni –  para os grupos econômicos liderados pelos fundos de investimento), a contrarreforma da previdência  abrindo caminho para o regime de capitalização em benefício do setor financeiro (FUNPRESP), a tentativa de quebrar o caráter público das universidades com a imposição da EBSERH e a adoção do modelo gerencialbresseriano no REUNI e, objetivamente, a regressão na reforma agrária, o adensamento do uso do aparato repressivo contra os movimentos sociais, a opção pelo neoextrativismo e pelo recrudescimento das expropriações, as reformas trabalhistas em etapas, a intervenção militar no Haiti - em suma, creio não ser necessário seguir exemplificando que o governo Lula e, ainda mais, o governo Dilma, seguiram um rumo congruente e consistente com os anseios do grande capital.

Essa avaliação parte dos próprios senhores do mundo. Foram as opções de política econômica e a política de alívio à pobreza para manter a governabilidade que levaram o país a ter a chancela do “grau de investimento” da banca internacional. Não menos simbólica foi a escolha de Lula da Silva como personagem exemplar pela cúpula mundial do capital em Davos (Fórum Econômico Mundial), concedendo-lhe o reconhecimento de “Estadista Global" em 2010. Diante das incertezas de uma crise tectônica, o capital celebrava o desempenho “pró-sistêmico” de Lula da Silva. Na mesma toada, o jornal francês Le Monde o escolheu como "Homem do Ano" de 2009; o diário espanhol El País o homenageou com o título de "Personagem Ibero-Americano de 2009"; e o vetusto Financial Times o elegeu como uma das 50 personalidades que moldaram a década. Não seria um exagero afirmar que essas avaliações, em curso desde 2005, impediram o impeachment de Lula da Silva na crise do chamado “mensalão”.

O que mudou, então? Obviamente, nem Lula da Silva, nem Dilma Rousseff abandonaram os seus compromissos com o grande capital, girando os seus governos para a esquerda. Longe disso. O modelo econômico e social pró-capital não foi alterado em seus fundamentos. O recente pronunciamento de The Economist (1), contudo, indica claramente que importantes centros de pensamento da alta burguesia anseiam pelo fim do governo Dilma, em prol de Aécio Neves. Confirmando seu compromisso com a banca internacional, o candidato já indicou previamente o braço direito de George Soros no Brasil, Armínio Fraga, como seu ministro da Fazenda. Esse não é um dado irrelevante da conjuntura.

A contenda nada tem a ver com direita e esquerda, mas com disputas no bloco no poder considerando as expectativas das frações burguesas dominantes frente à crise. Lula da Silva contava com o apoio do grande capital por conseguir harmonizar os grandes interesses burgueses, possivelmente não com a celeridade e profundidade desejada, mas entregando algo sumamente precioso para o capital: a estabilidade política. Atenuando e mesmo domesticando os sindicatos aliados que restringiram suas ações a pautas estritamente salariais – a despeito de proclamas aqui e ali em prol da redução dos juros e da redução da jornada de trabalho, encaminhamentos simplesmente ignorados pelos governos Lula da Silva e Dilma. Conforme o presidente da CNTE, a atual presidenta, ao longo de 4 anos, não dialogou diretamente com os representantes da Confederação (2). Ainda que o MST tenha seguido em luta em prol da reforma agrária,  Lula a travou “em nome dos heróis do século XXI, os agronegociantes do agrocombustível!”, conforme chegou a proclamar, e Dilma retrocedeu os novos assentamentos aos do tempo do general Figueiredo.

Mas a economia brasileira foi profundamente transtornada com o aprofundamento da crise econômica mundial. As locomotivas das exportações brasileiras (setores agro e mineral) foram atingidas pelos sinais de crise também na China, provocando queda acentuada de preços dascommodities após o período de bonança. A relativa recuperação estadunidense provocou novas expectativas de negócios neste país, afetando os investimentos estrangeiros que vinham impulsionando febril processo de aquisições e fusões que, grosso modo, desnacionalizou ainda mais a economia brasileira. Cada vez mais, os déficits estão sendo cobertos com a emissão de títulos que, por sua vez, tiveram de embutir taxas de juros crescentemente elevadas e com prazos de vencimento cada vez menores.

Na avaliação do grande capital é hora de impor novo aperto no cinto dos trabalhadores, reduzir impostos para os de cima, cortar gastos públicos em nome do ajuste fiscal pois, sem isso, apregoam os seus porta-vozes, a sangria do pagamento dos juros, as privatizações com verbas públicas, a financeirização da educação, saúde, previdência, a exportação decommodities, tudo isso poderá entrar na zona perigosa da crise com desdobramentos imprevisíveis. Nos estratos inferiores da economia, os sinais de que os negócios estão sob risco são evidentes: queda do preço das commodities, afetando agricultores apensados ao agronegócio, falências de lojas e setores de serviços, ampliação da capacidade ociosa e perda de competitividade da indústria. Estes sinais alimentam o desejo de um governo “puro sangue” por parte desses estratos.

Para piorar a avaliação do Estado Maior do Capital, as Jornadas de Junho de 2013 patentearam que o governo afinal não estava mais cumprindo com o seu diferencial: a manutenção da estabilidade e da ordem desejada pelo capital. O crescimento do número de greves é percebido como uma ameaça ao feroz ajuste da economia, a rigor, uma pauta de Dilma e Aécio que, entretanto, serão encaminhadas por modus operandi distintos, como a pré-nomeação de Armínio Fraga permite antever.

O resultado das eleições para o parlamento expressou essa mudança, em favor dos setores mais reacionários da sociedade, sustentando uma pauta moralista de cunho medieval, explicitamente de direita, mas composta por serviçais do capitalismo monopolista. Assim, a preocupação com a futura governabilidade de um governo Aécio foi mitigada pela avaliação de que uma nova maioria de direita poderia dar sustentação a seu governo.

Isso não quer dizer que o grande capital abandonou o governo gerenciado pelo PT. As doações dos bancos e empreiteiras ainda são majoritariamente para Dilma, mas o Estado Maior do Capital certamente percebeu que existe um descolamento entre as suas próprias expectativas (de que mais um mandato do PT poderia ser uma alternativa racional, ainda que pouco ambiciosa, mas prudente sob o ponto de vista do controle social dos subalternos) e sua base social, crescentemente insatisfeita com o governo Dilma Rousseff. A sinalização de que tal descompasso tem de ser resolvido, optando com determinação por Aécio, foi claramente exposta na matéria da revista The Economist.

A esquerda socialista está diante de um quadro complexo. Sua crítica ao governo Dilma não pode ser confundida com a das frações burguesas dominantes e imperializadas. Isso exigirá da esquerda a capacidade de um diálogo pedagógico com os trabalhadores e suas organizações.

Muitos militantes votarão em Dilma, percebendo as movimentações da direita e do grande capital. O diálogo somente será possível sem esquematismo e consignas congeladas. Não basta se insular no posicionamento de que “tanto faz Dilma ou Aécio”, em favor do voto nulo, pois, desse modo, nada estaria sendo feito para interpelar o proletariado quanto ao significado dessa imensa inflexão à direita que ocorre no Brasil.

Nesse sentido, a agenda proposta por Marcelo Badaró é muito importante. Embora não seja mais exequível um encontro unificado da esquerda socialista objetivando listar as exigências para o voto crítico em Dilma, a tarefa programática segue sendo prioritária para que a esquerda socialista possa cumprir um papel protagônico e educativo. Retomo a síntese de Valério Arcary (3), incorporada no texto de Badaró: “Se Dilma estivesse disposta a fazer uma reforma fiscal com impostos rigorosos sobre as grandes fortunas, manifestasse a intenção de romper com as chantagens do rentismo e, apoiada na mobilização dos trabalhadores, realizar uma auditoria e suspensão do pagamento da dívida pública. Se estivesse comprometida em garantir um aumento de verdade no salário mínimo, ou uma política de combate à privatização da educação, da saúde, do transporte urbano e da segurança. Se houvesse uma mínima possibilidade de que Dilma tomasse a iniciativa pela legalização do aborto, pela criminalização da homofobia, pela legalização do consumo de psicotrópicos. Se Dilma anunciasse a retirada das tropas do Haiti”.

Evidentemente, Arcary elencou pontos a título de exemplos, inclusive para fundamentar  seu posicionamento pelo voto nulo e, por isso, outras reivindicações teriam de ser acrescentadas, como por exemplo, o cumprimento do 2º Plano Nacional de Reforma Agrária, originalmente elaborado por Plínio de Arruda Sampaio por ocasião das eleições em 2002 e nunca implementado. O Encontro Nacional de Educação, realizado em agosto de 2014, esboçou outra agenda para a educação que não a do capital, em curso no país. A previsível recusa e desconsideração dessa agenda poderia tornar o posicionamento dos militantes que já possuem posição partidária a favor do voto nulo um ato pedagógico, abrindo um campo de diálogo/ formação política com os trabalhadores, o mesmo sendo verdade para a discussão do voto crítico, pois desprovido de ilusões pueris de que no quarto mandato a orientação pró capital do governo seria alterada.

Com a discussão do que pode unificar e viabilizar a unidade de ação capaz de materializar a frente de esquerda, o atual posicionamento pelo voto crítico em Dilma, sustentado por setores do PSOL, e em prol do voto nulo (PCB, PSTU e setores do PSOL), teria um referente programático que poderia contribuir para que os trabalhadores estivessem melhor armados teórica e organizativamente para enfrentar os ásperos desdobramentos do processo eleitoral.


Roberto Leher é professor titular de Políticas Públicas em Educação da Faculdade de Educação da UFRJ e de seu Programa de Pós-Graduação, colaborador da ENFF e pesquisador do CNPQ.





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Eleições 2014: os dilemas da esquerda socialista no segundo turno


Por Marcelo Badaró


Desde 1994, as eleições presidenciais no Brasil são polarizadas por disputas entre os candidatos do PSDB e do PT. Após doze anos à frente do governo federal, o PT chega novamente a um segundo turno contra uma candidatura do PSDB. Nada de novo no ar?

Há uma inegável continuidade de um quadro partidário que multiplica legendas, mas tende a uma polarização bipartidária, determinada pelas características de um regime democrático que restringe a participação às eleições e transforma o processo eleitoral em uma disputa pautada pelos “investimentos” em marketing, cuja eficácia depende da “generosidade” das empresas que “doam” recursos à campanha.

Há, no entanto, algo de diferente nessas eleições. Guilherme Boulos, em instigante artigopublicado na Folha de São Paulo, identifica uma “onda conservadora”, que associa ao fato de os campeões de voto para a Câmara Federal serem figuras nefastas da vida política brasileira: defensores da pena de morte, da redução da maioridade penal, viúvas da ditadura, que se esmeram em representar o conservadorismo homofóbico, racista e elitista.

É com base no mesmo vento à direita que se pode explicar o crescimento, na reta final do primeiro turno, da candidatura de Aécio Neves, do PSDB, que de fato representa hoje o perfil eleitoralmente viável das tendências mais reacionárias da classe dominante brasileira. Eleitoralmente tão viável que conquista votos entre setores da classe trabalhadora urbana, apresentando-se como representação dos anseios por “mudança”.

Boulos é particularmente feliz em apontar como tais anseios por mudança podem ser associados ao clamor das ruas nas jornadas de junho de 2013. Não se trata de fazer uma associação apressada e dizer que, em meio às disputas políticas que atravessaram aquelas manifestações, o reacionarismo das classes dominantes tenha predominado claramente. Pelo contrário, as jornadas acabaram por impulsionar movimentos grevistas, ocupações urbanas e outras formas de luta que podem ter um efeito multiplicador de médio prazo na correlação de forças sociais, tão desfavorável à classe trabalhadora nas duas últimas décadas. Mas, justamente porque as jornadas abriram um novo horizonte na luta de classes, as forças da reação se rearmaram e puseram-se em posições mais abertamente agressivas.

A ideia do ‘mal menor’ se desgastou

Nesse quadro, a proposta de conciliação de classes do discurso petista parece não dar conta de simular atender ao clamor de mudanças expresso nas ruas e, ao mesmo tempo, manter a confiança dos setores do capital que objetivamente representa no governo, em torno de sua eficácia na contenção das lutas sociais. Aí pode estar uma chave para compreendermos o inegável avanço conservador no quadro eleitoral.

É frente a essa realidade desafiadora que a esquerda socialista necessita se posicionar. Os posicionamentos mais simples passam por recomendar o voto (contra Aécio; em Dilma, com ou sem crítica; nulo; ou qualquer outra recomendação). Acredito, porém, que, para que o debate em torno a esse ponto possa ser mais interessante e pedagógico, para o setor mais organizado da classe e o eleitorado dos partidos de esquerda, a simples recomendação de voto é insuficiente como política de esquerda.

De fato, há razões objetivas muito fortes para se combater a candidatura de Aécio Neves. Os(as) militantes que viveram ativamente a década de 1990 recordam vivamente a amplitude da política privatista, a submissão ao setor financeiro e às diretrizes do FMI/Banco Mundial, o avanço do desemprego, a retirada de direitos sociais, os ataques aos sindicatos, o desmanche dos serviços públicos, em particular na saúde e educação, a conivência com os assassinatos de trabalhadores rurais sem terra, os avanços na militarização e criminalização no trato com os setores mais organizados, assim como os mais precarizados da classe trabalhadora, entre muitas outras faces da caixa de Pandora neoliberal dos dois mandatos do PSDB de Fernando Henrique Cardoso. Como este artigo é escrito para leitores de esquerda, acredito que não é necessário ir além para caracterizar o caráter reacionário da candidatura tucana.

Mas isso não pode bastar para taparmos o nariz e recomendarmos o voto no “menos pior”, representado pelo PT de Dilma. Fazer isso, assim sem mais, é simplesmente passar uma borracha sobre tudo aquilo que a esquerda criticou nos governos do PT nos últimos anos.

Afinal, se a maior parte do serviço já havia sido cumprida pela privataria tucana, o PT continuou privatizando (vide aeroportos, leilões de petróleo, PPPs variadas etc.), assim como continuou governando para o grande capital, com a manutenção de metas elevadas de superávit primário, juros altos, privilégios e subsídios ao setor industrial de bens duráveis (com presença predominante do capital estrangeiro) e ao agronegócio dirigido pelas multinacionais do agrotóxico e dos organismos geneticamente modificados. No plano dos direitos sociais, é preciso sempre lembrar que o primeiro mandato petista à frente do governo federal se iniciou com Lula utilizando-se do “lubrificante monetário” para garantir uma base aliada no Congresso disposta a aprovar a toque de caixa a sua (contra)reforma da previdência.

Ao que se seguiu uma (contra)reforma trabalhista fatiada, que continua em curso. Foi com a supervisão geral, ou a participação direta (com envio de tropas militares treinadas no Haiti), do governo federal petista que o processo de criminalização e militarização da gestão da questão social nas periferias e favelas das grandes cidades brasileiras avançou para o modelo consagrado no Rio de Janeiro com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). E quando duas senhoras à minha frente apontam para uma manchete de jornal sobre a corrupção na Petrobrás e balançam a cabeça, como que a dizer “no PT não voto”, posso avaliar criticamente o uso eleitoral dessas denúncias, mas nunca poderia negar que os governos petistas foram atravessados pela corrupção. E governar exatamente como os partidos da ordem sempre fizeram no país tem um custo enorme do ponto de vista da consciência social.

Afinal, como confiar nos partidos de esquerda se quando aquele que representava as lutas da classe trabalhadora brasileira (ao menos na década de 1980), quando chegou ao poder, fez “tudo igual”? Daí porque sejam ridículas as tabelas e quadros que vejo circular nas redes sociais fazendo um ranking da corrupção no Brasil recente, medida em bilhões de reais, para tentar convencer de que a corrupção nos governos petistas foi menor que nos governos do PSDB. A que ponto chegamos...

O que poderia levar a um voto no segundo turno?

Resta, para a defesa do voto em Dilma, o “reformismo quase sem reformas” (para usar a expressão de Valério Arcary): as políticas sociais compensatórias e focalizadas, mas de massas, como o Bolsa Família; o acesso ao mercado pelos setores mais pauperizados da classe, via essas políticas, pequenos reajustes reais do salário mínimo e expansão do crédito; a expansão do sistema federal de ensino (escolas técnicas e universidades) e a manutenção de patamares menores de desemprego e maiores de formalização. Também esses argumentos pró-voto no “menos pior” precisam ser problematizados.

Após duas décadas de retirada de direitos e desemprego amplo, o custo da força de trabalho caiu a ponto de compensar para o capital empregar formalmente novos contingentes de trabalhadores, ainda assim precarizados, pelos mecanismos da terceirização ou pelo simples fato de que a grande maioria dos novos empregos gerados paga até 1,5 salário mínimo. Algo que dificilmente se sustentará indefinidamente com o agravamento da crise capitalista que se desenha para o próximo período.

Por outro lado, não há razões objetivas para que um eventual governo tucano recue nas políticas sociais compensatórias, afinal o PT demonstrou que o Banco Mundial tinha razão e é muito barato conter os efeitos sociais mais perversos das políticas neoliberais com programas como o Bolsa Família. A ampliação do poder de consumo via crédito representou mais uma enorme fatia de mercado para o sistema financeiro e contribuiu (subsidiariamente à política de juros elevados, alimentando uma dívida pública que remunera o capital portador de juros em escala astronômica) para os maiores lucros da história dos bancos atuantes no Brasil.

E, vindo do meio universitário, bastante suscetível ao apelo corporativo, lembro que a expansão (muito precária no que diz respeito às condições de trabalho/estudo) das instituições federais de ensino se fez após a garantia de subsídio milionário ao setor privado (via bolsas do PROUNI e empréstimos para pagamento das mensalidades do FIES), que se ampliou até o limite do “mercado educacional”, continua a ter um crescimento das matrículas maior que o setor público e hoje abriga quase 75% dos estudantes do nível superior.

Aliás, para os que se preocupam com os concursos públicos – congelados à época dos governos do PSDB e de fato reabertos nos governos petistas -, foi o presidente da CAPES do governo Dilma quem anunciou a intenção de precarizar a contratação de docentes para as federais, através de Organizações Sociais (OS), eufemismo para terceirização com gestão privada da força de trabalho, em modelo semelhante ao já executado por esse governo nos hospitais federais, via Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH).

Ainda que a velha fórmula da “farinha do mesmo saco” seja simplista demais para avaliar as diferenças entre as gestões tucanas e petistas, o fato é que uma análise política baseada em critérios de classe, como bem recomenda Valério Arcary em artigo publicado no Correiro da Cidadania , deve destacar que ambos os partidos governam de acordo com os interesses das classes dominantes.

Resta saber se a opção das principais frações da classe dominante, para conduzir os “ajustes” já anunciados por ambas as candidaturas, será pelo PT, com sua capacidade (abalada) de amortecer conflitos, ou pelo “estilo” mais truculento dos tucanos. Teremos instrumentos precisos de medição desse dilema no balanço final do financiamento das campanhas. No primeiro turno, com três candidaturas com chance, Dilma ganhou nesse quesito. Temos então argumentos mais que suficientes para recomendar o voto nulo?

Estabelecer pautas mínimas

Para o leitor que chegou até aqui, peço um pouco de calma e desculpas pela dimensão deste texto, mas lembro que fugir às saídas mais simples exige argumentar com mais elementos. Sim, há argumentos mais que objetivos para a indicação do voto nulo. Mas, se a recomendação for a única proposta nessas semanas finais da campanha eleitoral, como as organizações da esquerda socialista vão manter o diálogo com aqueles (e por onde ando são muitos) que, até o fim do primeiro turno, circulavam com adesivos e material de campanha do PSOL, PSTU e PCB e hoje vestem a camisa da candidatura Dilma, ainda que sob a sintomática simbologia das imagens de uma jovem guerrilheira (simulacro do desejo irrealizável de um voto à esquerda)? E como responderão aos setores bem mais amplos da classe trabalhadora que, na ausência da mudança de fato, acabarão votando em um Aécio disposto a vestir a fantasia de Marina e sua “nova política”?

Neste ponto, temos que reconhecer: a apropriação do discurso da “mudança” pela direita mais reacionária é resultado, principalmente, de uma demonstração inequívoca por parte do PT de que continua a governar para a manutenção da ordem, mas a esquerda socialista também tem sua parcela de responsabilidade. Ao não efetivarem, no plano nacional, desde as “jornadas de junho”, uma Frente de Esquerda reunindo PSOL, PCB, PSTU, como também os movimentos sociais mais combativos da classe trabalhadora, essas organizações perderam a oportunidade de aproveitar o momento eleitoral para apresentar uma alternativa de mudanças pela esquerda que pudesse ter uma audiência mais ampla, disputando de fato a consciência social. Não que o resultado eleitoral pudesse ser muito diferente, mas por certo que, atuando unitariamente, nossa capacidade de intervenção se potencializaria.

Oportunidade perdida. Mas, ainda não totalmente. Com uma boa dose de disposição para a unidade, pode ser possível para a esquerda socialista fazer política neste momento, indo além da simples indicação de voto. Em artigo para a Revista Espaço Acadêmico, Lúcio Flávio Almeida propõe um movimento pela esquerda de indicar o voto em Dilma, desde que atendida uma pauta mínima. É um excelente ponto de partida para discussão. Valério Arcary, em sua defesa do voto nulo, apresenta uma lista semelhante de propostas que o PT não se dispõe a discutir e que poderiam levar a justificativas mais consistentes para um apoio da esquerda a Dilma. Reproduzo, como referência, os exemplos de pauta apresentados por Arcary, que afirma que a situação seria diferente se:

“Dilma estivesse disposta a fazer uma reforma fiscal com impostos rigorosos sobre as grandes fortunas, manifestasse a intenção de romper com as chantagens do rentismo e, apoiada na mobilização dos trabalhadores, realizar uma auditoria e suspensão do pagamento da dívida pública. Se estivesse comprometida em garantir um aumento de verdade no salário mínimo, ou uma política de combate à privatização da educação, da saúde, do transporte urbano e da segurança. Se houvesse uma mínima possibilidade de que Dilma tomasse a iniciativa pela legalização do aborto, pela criminalização da homofobia, pela legalização do consumo de psicotrópicos. Se Dilma anunciasse a retirada das tropas do Haiti”.

Como Arcary e como Guilherme Boulos, no artigo já citado, também não acredito que o PT vá “apontar o rumo de transformações populares para o próximo mandato, o que não fez nos últimos doze anos”. No entanto, entendo que teria um efeito pedagógico exemplar, se os partidos de esquerda e as organizações mais combativas do movimento social se reunissem nos próximos dias e apontassem uma pauta de compromissos mínimos que viabilizaria o voto em Dilma no segundo turno das eleições. Para o processo eleitoral, tal procedimento teria um efeito limitado, sinalizando o que seria uma resposta realmente pela esquerda para o anseio por mudanças.

Ainda assim, diante da (falta de) resposta petista a tal pauta, os que apontam o voto em Dilma poderiam ir além do voto “útil”, em direção de fato a um voto “crítico”, assim como os defensores do voto nulo teriam ainda mais elementos para reforçar sua posição. De qualquer forma, um movimento nessa direção poderia ter uma importância muito mais ampla, contribuindo para construir a necessária frente de forças políticas e sociais que possa dar suporte para as lutas da classe trabalhadora no próximo período, no qual os “ajustes” já anunciados indicam tempos ainda mais difíceis, qualquer que seja o resultado das urnas.




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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Metástase da corrupção e eleição da hipocrisia


Editorial Correio da Cidadania


Na ausência de diferenças substanciais, o debate do 2º turno das eleições presidenciais tem sido dominado pelo esforço mútuo de desconstruir a idoneidade do adversário. As acusações recíprocas de malversação de dinheiro público e de aparelhamento do Estado não têm fim. A cada ataque corresponde um contra-ataque. O “mensalão” petista é rebatido com o “mensalão” tucano. O “propinoduto” da Petrobrás, com o generoso “trem da alegria” da Alstom. É cara e coroa.

Os candidatos defendem-se de maneira conhecida. Negam peremptoriamente qualquer malfeito e juram ir até as últimas consequências para apurar os fatos, definir as responsabilidades e punir os culpados, doe a quem doer. Até as pedras sabem que nada será feito. Os denunciados são homens-bomba. Se abrirem a boca, a casa cai.

O próprio conteúdo do debate revela a cumplicidade dos candidatos com o sistema da corrupção. Ao personalizar e particularizar os escândalos, associando-os a desvios de conduta individuais, lacunas na legislação e falhas nos procedimentos de fiscalização, o discurso sugere que a pilhagem do Estado decorre de problemas que poderiam ser corrigidas caso houvesse vontade política. Enquanto falam, Dilma e Aécio sabem que mentem. Não existe um chefe político brasileiro que não tenha à sua sombra a figura sinistra e misteriosa do “operador” responsável pelas finanças da campanha. Nas altas esferas do poder, o homem do dinheiro é conhecido e goza de grande prestígio entre os pares.

Travestida de guardiã dos interesses gerais da população e defensora da moralidade, a mídia é parte orgânica do sistema de corrupção. Sem um sistema venal e degradado de formação da opinião pública não haveria corrupção generalizada como modo de funcionamento do sistema político, pois não haveria como circular (ou deixar de circular), no momento conveniente, as denúncias, dossiês, intrigas, insinuações, ameaças e chantagens que constituem a munição pesada da guerra entre as camarilhas que disputam o poder do Estado.

A luz intensa lançada sobre os escândalos de corrupção não tem a finalidade de elucidar o problema, mas, antes o contrário, objetiva desviar a atenção para aspectos secundários e personagens de menor relevância, a fim de ofuscar as relações que explicitam as engrenagens que subordinam os homens de Estado à lógica dos grandes e pequenos negócios. Ventríloqua de interesses escusos que permanecem sempre na penumbra, a grande mídia manipula a opinião pública com informações parciais, distorcidas e descontínuas, gerando uma visão apocalíptica e moralista do problema. Ao reduzir as causas do assalto aos cofres públicos à fraqueza de caráter, a corrupção é naturalizada. A imprensa marrom – quase a totalidade de nossa imprensa – esbalda-se e transforma a indústria da chantagem num grande negócio. “Se ninguém tem compostura, então, nos locupletamos todos” – uma moral que calha bem com a degeneração da res pública.

Se houvesse realmente vontade política de enfrentar a corrupção, seria preciso mostrar à população seu caráter sistêmico e desnudar os interesses de classe que lhe dão sustentação. Para tanto, bastaria não desperdiçar as raras oportunidades abertas pelos homens bombas que quebram o pacto de silêncio e expor à população a fisiologia que rege o aparelho digestivo do sistema político brasileiro.

A propósito, os depoimentos recentes do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e do doleiro Alberto Youssef são pérolas que deveriam ser bem aproveitadas. Seus testemunhos ao Ministério Público expõem com requintes de detalhes como funcionava e quem comandava o esquema de desvio de recursos na Petrobras. As primeiras lições são reveladoras:

a) A corrupção é um sistema que aprisiona os partidos políticos da burguesia e os aparelhos de Estado aos interesses do grande capital. Por trás da quadrilha que se apoderou de cinco diretorias da Petrobras, encontram-se os partidos da base de sustentação do governo federal e treze grandes empresas, entre as quais as principais empreiteiras do país - OAS, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior e Camargo Correia;

b) O centro nervoso que comanda as grandes negociatas encontra-se no controle do Legislativo pelo poder econômico e no controle do Executivo pelo Legislativo. Ainda no começo do governo Lula, em 2004, uma greve parlamentar de noventa dias forçou o presidente a nomear Paulo Roberto Costa, com mandato meticulosamente definido para arrecadar recursos para os partidos da base. É a prova dos nove de que a chamada “governabilidade” requer necessariamente conivência e cumplicidade incondicionais com a corrupção;

c) A corrupção é um sistema que envolve todos os partidos da ordem, mesmo os da oposição. A propina paga a altos cardeais do PSDB para que colaborassem na operação abafa da CPI da Petrobrás no Senado Federal deixa patente que ninguém escapa aos tentáculos da corrupção. A guerra de acusações recíprocas é uma farsa. No jogo do toma lá dá cá, a arte da política transforma-se na arte da malandragem e da impostura.

O debate eleitoral da corrupção não pode ser levado às últimas consequências porque a população não pode saber que a corrupção é um pressuposto do sistema representativo. Pois a promiscuidade entre o público e o privado – seu determinante histórico – é uma das pedras angulares da organização do Estado brasileiro.




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Conversando com versos (82) : "As Nuvens", de João Cabral de Melo Neto (1920-1999)



"As Nuvens"

As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são gestos brancos
da cantora muda;

são estátuas em voo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves
de países de vento;

são o olho pintado
escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça
nas varandas do sono;

são a morte (a espera de)
atrás dos olhos fechados
a medicina, branca!
nossos dias brancos.



Fonte: Paixão, Fernando.O que é poesia. 2ªed. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 1983, pp. 88/89.


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Impasses dos governos progressistas





Por Frei Betto

Na América Latina predominam, hoje, em meados da segunda década do século XXI, governos democráticos populares. A maioria foi eleita por forças de esquerda. Dos chefes de Estado, cinco atuaram como guerrilheiros sob ditaduras: Dilma Rousseff, do Brasil; Raúl Castro, de Cuba; José Mujica, do Uruguai; Daniel Ortega, da Nicarágua; e Salvador Sánchez, de El Salvador.

Ora, ser de esquerda não é uma questão emocional ou mera adesão a conceitos formulados por Marx, Lênin ou Trotsky. É uma opção ética, com fundamento racional. Opção que visa a favorecer, em primeiro lugar, os marginalizados e excluídos. Portanto, ninguém é de esquerda por se declarar como tal ou por encher a boca de chavões ideológicos, e sim pela práxis que desempenha em relação aos segmentos mais empobrecidos da população.

Na América Latina, os chamados governos democráticos populares reúnem concepções diversas, e perseguem, em tese, projetos de sociedades alternativas ao capitalismo. Transitam contraditoriamente entre políticas públicas voltadas aos segmentos de baixa renda e o sistema capitalista global, regido pelas “mãos invisíveis” do mercado.

Os governos democráticos populares têm produzido, de fato, importantes mudanças para melhorar a qualidade de vida de amplos segmentos sociais. Hoje, 54% da população latino-americana vivem em países governados por governos progressistas. Eis um fato inédito na história do Continente. Os outros 46%, cerca de 259 milhões de pessoas, vivem sob governos de direita, aliados aos EUA e indiferentes ao agravamento da desigualdade social e da violência.

Segundo Bernt Aasen, diretor regional do UNICEF para América Latina e Caribe, entre 2003 e 2011, mais de 70 milhões de pessoas saíram da pobreza no Continente; a taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos foi reduzida em 69% entre 1990 e 2013; a desnutrição crônica entre crianças de 6 meses a 5 anos diminuiu de 12,5 milhões, em 1990, para 6,3 milhões, em 2011;as matrículas no ensino fundamental subiram de 87,6%, em 1991, para 95,3%, em 2011.

No entanto, acrescenta ele, “a nossa região continua a ser a mais desigual do mundo, onde 82 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 2,50 por dia; 21,8 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola ou em risco de abandoná-la; 4 milhões não foram registradas ao nascer e, portanto, não existem oficialmente. (…) E 564 crianças menores de 5 anos morrem diariamente de causas evitáveis” (Cf. O Globo, 05/10/2014, p. 19).

Do ponto de vista histórico, é a primeira vez que tantos governos do Continente mantêm distância dos ditames da Casa Branca. E é também a primeira vez que se criam instituições de articulações continentais e regionais (ALBA, CELAC, UNASUR etc.) sem a presença dos EUA. Isso configura uma redução da influência imperialista na América Latina, entendida como predomínio de um Estado sobre o outro.

No entanto, outra forma de imperialismo predomina na América Latina: o domínio do capital financeiro, voltado à reprodução e concentração do grande capital, que se apoia no poder de seus países de origem para promover, desde os países-hospedeiros, exportação de capital, mercadorias e tecnologias, e apropriar-se das riquezas naturais e da mais-valia.

Houve um deslocamento da submissão política à submissão econômica. A força de penetração e obtenção de lucros do grande capital não se reduziu com os governos progressistas, apesar de medidas regulatórias e impostos adotados por alguns desses países. Se, de um lado, se avança na implantação de políticas públicas favoráveis aos mais pobres, por outro não se reduz o poder de expansão do grande capital.

Outra diferença entre os governos democráticos populares é que uns ousaram promover mudanças constitucionais, enquanto outros permanecem nos marcos institucionais e constitucionais dos governos neoliberais que os precederam, embora se empenhando em conquistas sociais significativas, como a redução da miséria e da desigualdade social.

As forças de esquerda da América Latina seguem centrando seu foco na ocupação do aparelho de Estado. Lutam para que os segmentos marginalizados e excluídos se incorporem aos marcos regulatórios da cidadania (indígenas, sem-terra, sem-teto, mulheres, catadores de material reciclável etc.). Governos e movimentos sociais se unem, sobretudo em períodos eleitorais, para conter as violentas reações da classe dominante alijada do aparato estatal.

No entanto, é esta classe dominante que mantém o poder econômico. E por mais que os ocupantes do poder político implementem medidas favoráveis aos mais pobres, há uma pedra intransponível no caminho: todo modelo econômico exige um determinado modelo político condizente com seus interesses. A autonomia da esfera política em relação à econômica é sempre limitada.

Essa limitação impõe aos governos democráticos populares um arco de alianças políticas, muitas vezes espúrias, e com os setores que, dentro do país, representam o grande capital nacional e internacional, que corrói os princípios e os objetivos das forças de esquerda no poder. E o que é mais grave: essa esquerda não logra reduzir a hegemonia ideológica da direita, que exerce amplo controle sobre a mídia e o sistema simbólico da cultura predominante.

Enquanto os governos democráticos populares se sentem permanentemente acuados pelas ofensivas desestabilizadoras da direita, acusando-a de tentativa de golpe, esta se sente segura por estar respaldada pela grande mídia nacional e global, e pela incapacidade de a esquerda criar mídias alternativas suficientemente atrativas para conquistar corações e mentes da opinião pública.

O modelo econômico predominante, gerenciado pelo grande capital e adotado pelos governos progressistas, visa a aproveitar as vantagens da “globalização” para exportar commodities e riquezas naturais, a fim de fazer caixa para financiar, através de políticas públicas, o consumo dos segmentos excluídos pela dívida social.

Ainda que adotem uma retórica progressista, os governos democráticos populares não logram prescindir do capital transnacional que lhes assegura suporte financeiro, novas tecnologias e acesso aos mercados. E, para isso, o Estado deve participar como forte investidor dos interesses do capital privado, seja pela facilitação de créditos, seja pela desoneração de tributos e adoção de parcerias público-privadas. Este é o modelo de desenvolvimento pós-neoliberal predominante hoje na América Latina.

Esse processo exportador-extorsivo inclui recursos energéticos, hídricos, minerais e agropecuários, com progressiva devastação da biodiversidade e do equilíbrio ambiental, e a entrega da terra aos monocultivos anabolizados por agrotóxicos e transgênicos. O Estado investe em ampla construção de infraestrutura para favorecer o escoamento de bens naturais mercantilizados, cujo faturamento em divisas estrangeiras raramente retorna ao país. Uma grande parcela dessa fortuna se aloja em paraísos fiscais.

Eis a contradição desse modelo neodesenvolvimentista que, no frigir dos ovos, anula as diferenças estruturais entre os governos de esquerda e de direita. Pois adotar tal modelo é aceitar tacitamente a hegemonia capitalista, ainda que sob o pretexto de mudanças “graduais”, “realismo” ou “humanização” do capitalismo. De fato, é mera retórica de quem se rende ao modelo capitalista.

Se os governos democráticos populares pretendem reduzir o poder do grande capital, não há outra via senão a intensa mobilização dos movimentos sociais, uma vez que, na atual conjuntura, a via revolucionária está descartada e, aliás, só interessaria a dois setores: extrema-direita e fabricantes de armas.

Porém, se o que se pretende é assegurar o desempenho do grande capital, então os governos progressistas terão que se adequar para, cada vez mais, cooptar, controlar ou criminalizar e reprimir os movimentos sociais. Toda tentativa de equilíbrio entre os dois polos é, de fato, contrair núpcias com o capital e, ao mesmo tempo, flertar com os movimentos sociais no intento de apenas seduzi-los e neutralizá-los.

Como os governos democráticos populares tratam os segmentos da população beneficiados pelas políticas sociais? É inegável que o nível de exclusão e miséria causado pelo neoliberalismo exige medidas urgentes que não fogem ao mero assistencialismo. Porém, tal assistencialismo se restringe ao acesso a benefícios pessoais (bônus financeiro, escola, atendimento médico, crédito facilitado, desoneração de produtos básicos etc.), sem que haja complementação com processos pedagógicos de formação e organização políticas. Criam-se, assim, redutos eleitorais, sem adesão a um projeto político alternativo ao capitalismo. Dão-se benefícios sem suscitar esperança. Promove-se o acesso ao consumo, sem propiciar o surgimento de novos protagonistas sociais e políticos. E o que é mais grave: sem perceber que, no bojo do atual sistema consumista, cujas mercadorias recicláveis estão impregnadas de fetiche que valorizam o consumidor e não o cidadão, o capitalismo pós-neoliberal introduz “valores” - como a competitividade e a mercantilização de todos os aspectos da vida e da natureza -, reforçando o individualismo e o conservadorismo.

O símbolo dessa modalidade pós-neoliberal de consumismo é o telefone celular. Ele traz em seu bojo a falsa ideia de democratização pelo consumo e de incorporação à classe média. Assim, segmentos excluídos se sentem menos ameaçados quando acreditam que está ao alcance deles, mais facilmente, atualizar o modelo do celular do que obter saneamento onde moram. O celular é a senha para se sentir incluído no mercado... E sabemos todos que as formas de existência social condicionam o nível de consciência. Ou, em outras palavras, a cabeça pensa onde os pés pisam (ou imaginam que pisam).

Nossos governos progressistas, em suas múltiplas contradições, criticam o capitalismo financeiro e, ao mesmo tempo, promovem a bancarização dos segmentos mais pobres, através de cartões de acesso ao benefício monetário, a pensões e salários, e da facilidade de crédito, apesar da dificuldade de se arcar com os juros e a quitação das dívidas.

Em suma, o modelo neodesenvolvimentista monitorado pela esquerda se empenha em fazer da América Latina um oásis de estabilidade do capitalismo em crise. E não consegue fugir da equação que associa qualidade de vida e crescimento econômico segundo a lógica do capital. Enquanto não se socializa culturalmente a proposta indígena do bem viver, para a grande maioria viver bem será sempre sinônimo de viver melhor em termos materiais.

O grande perigo em tudo isso é fortalecer, no imaginário social, a ideia de que o capitalismo é perene (“A história acabou”, proclamou Francis Fukuyama), e que sem ele não pode haver processo verdadeiramente democrático e civilizatório. O que significa demonizar e excluir, ainda que pela força, todos que não aceitam essa “obviedade”, então considerados terroristas, inimigos da democracia, subversivos ou fundamentalistas.

Essa lógica é reforçada quando, em campanhas eleitorais, os candidatos de esquerda acenam, enfaticamente, com a confiança do mercado, a atração de investimentos estrangeiros, a garantia de que os empresários e banqueiros terão maiores ganhos etc.

Por um século a lógica da esquerda latino-americana jamais se deparou com a ideia de superar o capitalismo por etapas. Este é um dado novo, que exige muita análise para se implementarem políticas que impeçam que os atuais processos democráticos populares sejam revertidos pelo grande capital e por seus representantes políticos de direita.

Este desafio não pode depender apenas dos governos. Ele se estende aos movimentos sociais e aos partidos progressistas que, o quanto antes, precisam atuar como “intelectuais orgânicos”, socializando o debate sobre avanços e contradições, dificuldades e propostas, de modo a alargar sempre mais o imaginário centrado na libertação do povo e na conquista de um modelo de sociedade pós-capitalista verdadeiramente emancipatório.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Segundo turno: questões em disputa


Por Wladimir Pomar

Seria uma maravilha que as questões em debate no segundo turno das eleições fossem a socialização dos meios de produção e os rumos para a construção de uma sociedade não capitalista. Os resultados eleitorais, porém, mostraram que o povo brasileiro ainda não as tem como sua principal preocupação. Nosso povo, em sua maioria, ainda acredita que pode melhorar a saúde, a educação, a mobilidade urbana, a moradia, o saneamento, o emprego, os salários e outras condições de vida, e combater a corrupção, com maior intervenção do governo, sem modificar em profundidade o sistema de propriedade privada e o Estado.

Duas a três dezenas de milhões de brasileiros se abstiveram de votar. Não em protesto, mas por despolitização. Acreditaram, como prega a classe dominante através do Partido da Mídia, que política é coisa de corruptos. A esquerda da esquerda, por seu turno, apesar do desempenho combativo e menos estreito de Luciana Genro, não chegou a 3% dos votos válidos.

Marina apresentou-se como terceira via, mas foi atacada de uma doença infantil de direitismo capitalista. Tornou-se mais radical em seu negativismo e neoliberalismo do que o neoliberal Aécio. Da mesma forma que subiu como um foguete, na comoção da morte prematura de Eduardo Campo, desceu com a mesma velocidade ao embaralhar-se em suas contradições e ambiguidades. E perdeu qualquer credibilidade. Unicamente ela foi responsável por sua desconstrução prematura.

Nessas condições, defrontam-se novamente dois caminhos capitalistas. De um lado, um desenvolvimento capitalista com redistribuição de renda, redução da miséria e da pobreza, democratização e nacionalização do capital, reforço do papel do Estado na economia, integração sul-americana e multipolaridade internacional. De outro, um capitalismo que pretende aprofundar a dependência aos centros imperiais em crise, através de uma imaginária “inserção nas cadeias globais em valor”, retomar a fracassada tentativa de conter a inflação através de juros altos, arrocho salarial e freio no crescimento, e liquidar com qualquer tipo de políticas sociais efetivas.

Objetiva e taticamente, não há como a esquerda, toda ela, escapar dessa disputa. A não ser, é lógico, que pretenda mergulhar no “quanto pior, melhor”, um velho e recorrente erro histórico. Por outro lado, se Dilma e o PT pretendem incorporar toda a esquerda e conquistar setores sociais descontentes, ou influenciados pela constante manchete midiática de que a economia brasileira está à beira do abismo, terão que tratar politicamente as questões econômicas como centrais neste segundo turno.

Alguns economistas, quando ouvem a proposta de tratar as questões econômicas como politicamente centrais, entendem isso como a discussão de taxas da inflação, superávit fiscal, inserção ou não da economia nas cadeias globais de valor, critérios para a concessão de crédito, e outras tecnicalidades macroeconômicas. Acostumados a discutir entre si em “economês”, acreditam que a maior parte do povo não liga para os fatos econômicos que interferem em sua vida.

No entanto, inflação, juros, impostos, aumento ou diminuição da produção, melhoria ou redução do comércio, aumento ou redução dos empregos e dos salários, tudo isso é o âmago da preocupação de vida da maior parte da população. E foi essa preocupação, incrementada pela distorção da direita quanto ao estado da economia e do crescimento, que levou ao segundo turno a presente eleição presidencial. Mesmo porque todo mundo sabe que políticas sociais só podem ser efetivadas se a economia permitir.

Nessas condições, para a maior parte da população e também para a esquerda, Dilma e o PT precisam responder a essas questões com linguagem acessível e compreensível. Quando o povão sente a inflação, ele a sente nos preços dos alimentos e dos produtos nas prateleiras dos armazéns e supermercados.

A direita afirma que a inflação sobe por causa dos gastos exorbitantes do governo, em todos os terrenos, assim como dos altos salários. Portanto, ela defende o combate à inflação através da elevação dos juros, redução das despesas e investimentos do governo, aperto dos salários, e redução dos trabalhadores empregados, mesmo que às vezes procure negar que pretenda isso.

Dilma e o PT, por seu lado, têm reiterado que juros altos, redução das despesas e investimentos, arrocho salarial e desemprego podem baixar a inflação; também vão diminuir o crescimento econômico, aumentar o desemprego, e gerar mais pobreza e miséria. O que é verdade. No entanto, não têm explicitado com a clareza devida a alternativa mais adequada de combate à inflação. Isto é, o aumento da produção de alimentos e de outros produtos do dia a dia do povo. Nem têm dito que, para isso, o governo vai aumentar o crédito e baixar os impostos para os agricultores familiares e para as pequenas e médias empresas industriais que respondem pela oferta daqueles produtos.

Além da inflação, o crédito é outro item importante das famílias que pretendem melhorar suas condições de vida. E o crédito está fundamentalmente relacionado aos juros. Portanto, reduzir os juros não é apenas uma questão de macroeconomia. É um problema do dia a dia do povo. Incide diretamente sobre o crédito comercial e sobre os preços. Então, se podemos combater a inflação com o aumento da oferta de bens, os juros altos praticados no Brasil são não só uma aberração  macroeconômica. São, principalmente, uma penalização que os assalariados e pequenos e médios empresários sentem na carne.

Dilma e o PT precisam dizer claramente que os juros altos só beneficiam aos banqueiros, financeiras e especuladores. E fazer um chamamento para que o povo se junte na batalha que leve o Banco Central a participar das políticas de aumento da produção, subordinando-se às políticas para baixar juros e preços, e pressionando os bancos privados a adotar os mesmos procedimentos. Dilma e o PT precisam reiterar ainda mais que não admitirão um Banco Central independente da política de desenvolvimento, porque isso significará um Banco Central subordinado ao sistema financeiro, à agiotagem e à especulação.

Algo idêntico precisa ser dito quanto aos impostos, que também incidem sobre os preços. Quem mais paga impostos no Brasil são os assalariados e os setores médios. Dilma precisa dizer claramente que uma reforma tributária que faça com que quem ganhe mais pague mais só será possível com forte mobilização popular. E que, enquanto isso não acontece, o governo gastará com subsídios e desonerações aos pequenos e médios produtores de alimentos e bens de uso cotidiano do povo.

Além disso, para continuar criando mais empregos e elevando os salários, Dilma precisa deixar claro que vai se empenhar na construção e funcionamento de mais indústrias, mais ferrovias, mais veículos leves sobre trilhos, de superfície e subterrâneos, nas cidades. Terá que construir e botar para funcionar mais postos de saúde, mais ambulatórios, mais hospitais. Terá que formar e qualificar mais médicos, mais agentes de saúde, mais enfermeiros, mais professores, e reduzir drasticamente a privatização e desnacionalização de todos esses setores que foram sucateados durante os anos de governo tucano.

O mesmo será necessário para o saneamento, a moradia, o meio ambiente. Todas essas áreas dependem da economia. Se o povo não tiver certeza de que a economia funcionará no bom sentido, prevalecendo o discurso da direita de que a economia brasileira foi para o buraco, pouco adiantará se comprometer em garantir os direitos trabalhistas, os empregos e os salários. Portanto, o tratamento político das questões econômicas tende a constituir o centro do debate no segundo turno. E Dilma e o PT, se quiserem conquistar a esquerda e o centro políticos, terão que falar em português corrente, não em “economês”.

Dilma também precisará explicar que o bolsa família não está criando vagabundos. Está tirando milhões de brasileiros da miséria abjeta e criando uma mão de obra qualificada para ocupar novos empregos. Isso, assim como a melhoria do poder de compra dos mais pobres, é uma condição positiva para o funcionamento das fábricas e para aumento do comércio e dos negócios das chamadas classes médias. E, para a esquerda, a criação de uma base social proletária que tem feito falta nas lutas sociais.

Finalmente, e não menos importante, Dilma e o PT terão que enfrentar aberta e francamente a questão da corrupção. Não basta dizer que, em toda a história da polícia federal, pela primeira vez, ela está voltada para a repressão à corrupção e ao crime organizado, e não para a repressão política. Nem que o governo jamais tentou impedir ou esconder tais investigações, e que vai continuar investigando, “doa a quem doer”. Ou que os governos da direita, ao contrário, empurraram para baixo do tapete todos os casos conhecidos de corrupção, e impediram a investigação de inúmeros que nem chegaram a ser conhecidos.

O que Dilma e o PT precisam dizer é que não mais vacilarão em tomar medidas fortes contra dirigentes petistas ou aliados que estiveram envolvidos em casos de caixa dois, tráfico de influência, ou outros delitos de corrupção. Serão afastados até que os indícios ou acusações sejam comprovados ou não. Se tal comprovação for positiva, a exclusão precisa ser definitiva, ficando por conta da Justiça outros tipos de penalização constantes na lei. Se não for, a reparação também será pública, e os acusadores devem pagar as penas da lei pela calúnia. Esta é a única maneira de superar a imagem, instilada pelo Partido da Mídia, de que a esquerda, em especial o PT, seria corrupta e estaria destruindo o Brasil.

Portanto, o que não falta são questões em disputa, apesar de ainda se encontrarem no âmbito das contradições capitalistas. Se a esquerda socialista vai saber participar delas e avançar no acúmulo de forças é algo a ser verificado nos resultados do dia 26 de outubro.




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