quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Conversando com versos (78) : " O poeta e a rosa", de Vinicius de Moraes (1913- 1980)


"O poeta e a rosa"

   (E com direito a passarinho)

Vinicius de Moraes

Ao ver uma rosa branca
O poeta disse: Que linda!
Cantarei sua beleza
Como ninguém nunca ainda!


Qual não é sua surpresa
Ao ver, à sua oração
A rosa branca ir ficando
Rubra de indignação.


É que a rosa, além de branca
(Diga-se isso a bem da rosa...)
Era da espécie mais franca
E da seiva mais raivosa.


Que foi? balbucia o poeta

E a rosa: – Calhorda que és!
Pára de olhar para cima!
Mira o que tens a teus pés!


E o poeta vê uma criança
Suja, esquálida, andrajosa
Comendo um torrão da terra
Que dera existência à rosa.


São milhões! – a rosa berra
Milhões a morrer de fome
E tu, na tua vaidade
Querendo usar do meu nome!...


E num acesso de ira
Arranca as pétalas, lança-as
Fora, como a dar comida
A todas essas crianças.


O poeta baixa a cabeça.
É aqui que a rosa respira...
Geme o vento. Morre a rosa.
E um passarinho que ouvira


Quietinho toda a disputa
Tira do galho uma reta
E ainda faz um cocozinho
Na cabeça do poeta.



Fonte: Moraes, Vinicius de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1981, reimpressão 2ª ed., pp.348/9


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