quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Conversando com versos (73): "Maquiavélico", de Raul de Leoni (1895-1926)


"Maquiavélico”


Há horas em que a minha alma sente e pensa,
Num tempo nobre que não mais se avista,
Encarnada num príncipe humanista,
Sob o Lírio Vermelho de Florença. 

Vejo-a, então, nesta histórica presença,
Harmoniosa e sutil, sensual e egoísta,
Filha do idealismo epicurista,
Formada na moral da Renascença.

Sinto-a, assim, flor amável do Helenismo.
Virtuose – restaurando os velhos mapas
Do gênio antigo, entre exegeta e artista.

E ao mesmo tempo, por diletantismo,
Intrigando a política dos papas,
Com a perfídia elegante de um sofista...


Fonte: Leoni, Raul de. Luz Mediterrânea. São Paulo: Martins Editora, 1959, 9ªed., p.42



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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

69/70 anos da bomba atômica sobre o Japão: a arma da autodestruição da espécie?



Por Leonardo Boff

Passaram-se 69/70 anos do maior ato terrorista da história que foi o lançamento de duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Não eram armas contra exércitos, mas armas de destruição em massa, de civis, mulheres, crianças, animais, vegetação, de tudo o que vive. O copiloto Robert Lewis vendo a devastação, assustado exclamu: ”Meu Deus, o que fizemos”? O impacto foi tão demolidor que o imperador Hiroíto logo se rendeu também por este argumento:”para evitar a total extinção da civilização humana”(P. Johnson,Tempos modernos 1990,357). Ele captou sabiamente: partir de agora não precisamos mais que Deus intervenha para pôr fim à nossa história. Nós nos demos os instrumentos que nos podem autodestruir. Como disse Sartre:” nós nos assenhoreamos de nosssa própria morte”.

No final de sua vida, o grande historiador inglês Arnold Toynbee (+1975), depois de escrever muitos tomos sobre as grandes civilizações, deixou consignada esta opinião sombria em seu ensaio autobiográfico Experiências de 1969: “Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade intra-histórica capaz de ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do homem”.

O insuspeito Samuel P. Huntington, já falecido, antigo assessor do Pentágono e um analista perspicaz do processo de globalização, no término de seu O choque de civilizações diz: “A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da civilização; em grande parte no mundo elas parecem estar evaporando; numa base mundial, a civilização parece, em muitos aspectos, estar cedendo diante da barbárie, gerando a imagem de um fenômeno sem precedentes, uma Idade das Trevas mundial, que se abate sobre a Humanidade” E para terminar o cenário valem as palavras do famoso historiador Eric Hobsbawm que fecha seu livro Era dos extremos (1995) com esta grave advertância:”O futuro não pode ser a continuação do passado…nosso mundo corre risco de explosão e implosão…Tem que mudar…e a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão”. Não é issos que estamos vendo?

Portanto, os cenários não são nada róseos. Mas quem pensa nestas ameaças que pesam sobre nosso destino? Os chefes de Estado de transormaram antes em gestores da macroeconomia do que governantes de seus povos. E os “capos” das grandes corporações transnacionais só pensam em lucrar e lucrar indefinidamente às expensas da demolição das fundações materias da vida e da superexploração de povos inteiros como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália.

O fato é que depois da invenção perversa das armas nucleares, a produção da máquina de morte se sofisticou ainda mais com outras armas: químicas, biológicas, bacteriológicas, eletrônicas, nanotecnológicas que podem destruir toda a humanidade e a biosfera visível por 25 formas diferentes. A razão alcançou seu mais alto grau de irraciionalidade e de loucura. Vivemos tempos que brincam com o suicídio coletivo.

Geralmente esta é a lógica dos bruxos da ciência: se podemos, quem nos impedirá de realizar o que podemos? Depois da violência da economia, como está ocorrendo com uma fúria inaudita em vários países do mundo, particularmente na Europa, vem, via de regra, a violênca das armas.

Em muitas partes do mundo há conflitos que se acirram cada vez mais. Há os que aventam a possibilidade da utilização de armas nucleares táticas, pequenas que não matam muita gente, mas tornam a região por 15 a 20 anos inabitável por causa da radioatividade e com a erosão genética de muitos seres vivos, como ocorreu em Chernobyl na Ucrânia e está ocorrendo em Fukushima no Japão.

Vale a pena ler o livro do ex-assessor de François Mitterand, Jacques Attali, Uma breve história do futuro (2008). Descreve três ondas do futuro: o hiperimpério (os USA em decadência); o hiperconflito (balcanização do mundo com guerras regionais cada vez mais letais). A violência cresce a ponto de degenerar numa guerra de destruição em massa generalizada. Então, imagina Attali, a humanidade se dará conta de que pode realmente se autodestruir. Finalmente se torna socialista, não por ideologia mas por necessidade: só temos esta Terra e devemos repartir seus recursos escassos senão morreremos. Surge a onda da hiperdemocracia planetária.

Attali termina o livro se perguntando: e o Brasil nisso tudo? Ele mesmo responde:”Se há um país que se assemelha ao que poderia tornar-se o mundo, no bem e no mal, esse país é o Brasil. Nele encontramos todas as dimensões do hiperimpério, tudo o que prepara o hiperconflito e tudo o que anuncia a hiperdemocracia”. Cabe a nós refletir seriamente sobre que futuro estamos preparando, miniatura do futuro bom ou da desgraça sobre toda a vida na Terra?






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Plenária dos profissionais do estado que estão sofrendo perseguição: Veja o que foi discutido


Ontem (dia 19 de agosto) foi realizada uma reunião no auditório do SEPE/RJ com professores do Estado que se encontram em situação de perda de lotação e ou desconto no salário,e os que não receberam o décimo terceiro salário.

Na discussão, foi definido que, na sexta feira (dia 22/8), os profissionais que ainda tem problema com perda de lotação, deverão se dirigir as Metropolitanas, às 10h, para cobrar o cumprimento da liminar ganha pelo SEPE, que garante o retorno dos profissionais de educação às suas escolas de origem.

Esses profissionais deverão ser acompanhados pelos diretores de núcleos e regionais do sindicato.


Fonte: http://www.seperj.org.br/ver_noticia.php?cod_noticia=5678


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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A questão industrial

Por Wladimir Pomar


Das questões colocadas para o desenvolvimento brasileiro, a industrial não tem tido o destaque que merece. Embora inúmeros economistas considerem que o processo industrial seja aquele que melhor pode deslindar os principais aspectos do desenvolvimento econômico, isso não tem se transformado em propostas ou políticas efetivas para solucionar a atual inércia desindustrializante do país.

Essa dificuldade é agravada, em certa medida, pelas interpretações a respeito das origens históricas e do papel da revolução industrial e, portanto, da própria indústria. Alguns supõem que, para que tal revolução ocorresse, teria sido necessária a existência de Estados nacionais absolutistas. Esses Estados teriam transferido o excedente econômico do Novo Mundo, a principal fonte de acumulação primitiva, para financiar a acumulação de capital nos países centrais.

Outros, porém, acreditam haver sido mais importante o lento processo de construção institucional de uma economia de livre mercado para permitir a realização da revolução industrial. Esta teria sido decorrência daquela construção institucional. Na prática, tanto esta quanto a interpretação anterior supõem que as mudanças na superestrutura (Estados nacionais e construção institucional) seriam a origem das revoluções técnicas e econômicas da sociedade.

Prática e historicamente, a revolução industrial ocorreu apenas em um Estado nacional absolutista. Na Inglaterra, a acumulação primitiva de capital, proporcionada pelos saques das riquezas, tanto do Novo Mundo quanto da África, Ásia e Oceania, ganhou uma nova qualidade ao se combinar com uma enorme massa humana livre. Livre, tanto no sentido de que não era escrava ou serva, quanto no sentido de que fora expropriada de seus meios de produção pela revolução agrícola e agrária inglesa.

Foi a junção desses dois elementos básicos (capital + força de trabalho livre) que permitiu a criação das manufaturas e a criação de um novo mercado, diferente do até então existente. As manufaturas propiciaram que as demandas sociais e os avanços técnicos levassem à revolução industrial. Esta teve por base inicial o invento e a operação de máquinas de tecidos, da máquina a vapor e das transmissões mecânicas por correias.

A revolução industrial se expressou, assim, tanto na construção de máquinas quanto na massificação da produção. Neste caso, subordinando a demanda à produção industrial e subvertendo e mercado. A indústria se impôs, passo a passo e em luta constante contra os feudais e os Estados absolutistas que os representavam. E levou à constituição de novos tipos de Estado e à construção institucional do livre mercado. A revolução na base da sociedade revolucionou sua superestrutura.

O livre mercado e os Estados nacionais formalmente democráticos foram se expandindo à medida que a revolução industrial se desenvolveu, criando novas máquinas, novas organizações produtivas, novos produtos e novos segmentos de mercado. A indústria, ou a transformação em escala de matérias primas fornecidas pela natureza em materiais e bens que a natureza não é capaz de transformar por si mesmo, se mostrou muito mais capaz de criar riqueza do que a agricultura, o artesanato e a manufatura.

Ou seja, também tendo por base o trabalho humano, a indústria se mostrou muito superior àqueles três ramos produtivos na extração do valor proporcionado pela força de trabalho no processo produtivo. É essa capacidade de extrair alto valor da força de trabalho no processo produtivo que também tornou a indústria superior ao comércio e aos serviços, mesmo que estes estejam relacionados com a circulação e a distribuição de mercadorias industriais. Na verdade, o comércio e os serviços não geram valor próprio, ou o geram em pequena proporção. Seus lucros fazem parte da divisão da massa total de valor produzida pelas forças de trabalho empregadas na indústria, agricultura, artesanato e manufatura.

Por outro lado, o desenvolvimento da indústria impôs à produção e ao mercado uma complexidade e uma desordem desconhecida dos modos de produção anteriores. A concorrência introduziu uma permanente guerra de preços e a necessidade de revolucionar constantemente as máquinas e a produtividade. Estas, por sua vez, elevaram a capacidade de produzir muito acima da capacidade de consumo do mercado. Tudo isso colocou os capitalistas diante de um mercado caótico, tendendo a crises constantes, seja de lucratividade, seja de superprodução.

Tais crises, por sua vez, introduziram novas mudanças no Estado. Ele se viu obrigado a intervir na economia para salvar o capitalismo do próprio capital. O que estimulou os países capitalistas subdesenvolvidos a fazerem com que seus Estados interferissem na economia para desenvolver a indústria, seja utilizando empresas de capital estatal, seja orientando os investimentos privados.

No Brasil, durante o século 20, por três vezes o Estado desempenhou papel industrializante. Nos dez anos finais do século, ao contrário, realizou uma política de devastação industrial, a serviço dos interesses capitalistas financeiros e estrangeiros. Nos anos mais recentes, o Estado tem se visto num processo ambíguo. Tem deixado que os investimentos, inclusive os estrangeiros, se dirijam preferentemente para o comércio e os serviços. E pouco tem feito para reverter a inércia declinante da produção industrial. O que reduz a capacidade de o país gerar riqueza na intensidade que seria necessária para retomar um desenvolvimento sustentado.

Essa situação se agravou ainda mais porque a indústria brasileira é predominantemente constituída por empresas estrangeiras, cujos lucros (ou do valor gerado pela força de trabalho local) são exportados para suas matrizes no exterior. Isto cria uma contradição entre o produto interno bruto, ou o valor total produzido no país, e o valor nacional bruto, ou o valor líquido que permanece no país. Contradição que também se faz presente com os gastos da crescente importação de produtos industriais de outros países.

Nessas condições, discutir a centralidade da indústria no Brasil de hoje deveria consistir em discutir como elevar os investimentos públicos na indústria e como, através dessa alavancagem, estimular os investimentos privados. É necessário abandonar a suposição de que vivemos uma era pós-industrial, propalada pela publicidade dos países capitalistas centrais. Com ela, eles querem justificar seu declínio industrial, causado por seu alto desenvolvimento tecnológico, colapso da lucratividade e exportação de capitais para fazer frente àquele colapso.

Para nós, é mais vantajoso retomar toda a história do desenvolvimento industrial, desde a revolução industrial inglesa, passando pela industrialização sofisticada francesa, pela industrialização forçada norte-americana e pelas industrializações estatais alemã e japonesa, entre os séculos 18 e 19. Ou, se não se quisermos ir muito longe, examinar o desenvolvimento industrial da Alemanha, Japão e Tigres Asiáticos nos anos 1950.

A reindustrialização ou industrialização desses países foi, em grande parte, proporcionada pela política de Guerra Fria, pela Guerra da Coréia e pelas guerras de descolonização. Em todos os casos, os Estados daqueles países aproveitaram das demandas imperiais dos Estados Unidos. Porém, colocaram-se no comando do processo interno, tanto planejando e orientando os investimentos estrangeiros diretos para o adensamento de suas cadeias produtivas quanto protegendo o parque industrial nacional. Ao mesmo tempo, estimularam as exportações de manufaturados e elevaram a qualificação educacional e técnica da força de trabalho.

Também é possível examinar as experiências mais recentes dos Novos Países Industrializados, como a Indonésia, a Tailândia e a Malásia, assim como da Índia e dos socialismos de mercado da China e do Vietnã. Em todos os casos, de uma forma mais ou menos intensa, temos os mesmos ingredientes do Japão e dos Tigres Asiáticos combinados com as características nacionais de cada um.

O que ressalta, em todos os casos, é o papel desempenhado pelo desenvolvimento industrial no desenvolvimento econômico, social e político. Sem a implantação de cadeias industriais relativamente completas, às vezes comportando e combinando plantas da primeira, segunda e terceira revoluções industriais, no sentido de gerar novos postos de trabalho, o incremento da riqueza que permite o desenvolvimento social e político não teria sido possível.

Nesse sentido, o debate sobre a construção preliminar ou posterior de fortes sistemas educacionais, de altas taxas de poupança, de políticas macroeconômicas conservadoras, de Estados enxutos com baixa carga tributária e muito eficientes na oferta de serviços públicos, se parece com a discussão sobre o que surgiu primeiro: o ovo ou a galinha?

Alguns daqueles países tinham bons sistemas educacionais, mas baixas taxas de poupança, ou de capital acumulado. Outros não possuíam políticas macroeconômicas conservadoras, nem Estados que praticassem baixas cargas tributárias. E, em geral, só conseguiram oferecer serviços públicos eficientes à medida que seus parques industriais começaram a gerar taxas crescentes de riqueza e permitiram maiores investimentos naqueles serviços.

Portanto, para ver que caminho seguir, é preciso ter em conta as experiências dos outros, mas partir das condições nacionais. Estas são a base. Não aproveitar a experiência dos outros é arrogância patrioteira. Mas a cópia estrita leva ao desastre.

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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Plantão do departamento Jurídico tem na pauta a revisão do PCCV da Educação




No dia 15 de agosto, sexta-feira, aconteceu o plantão do Departamento Jurídico do Sepe, quando foram tratados problemas apresentados pela categoria e diretoria, que demandam encaminhamentos.

Como de praxe, essas reuniões contam com a presença do advogado do sindicato e de diretores do Núcleo. Desta vez, além das questões de rotina, constaram a análise e a avaliação do atual processo de discussão para revisão do PCCV da Educação de Rio das Ostras.

Essa discussão, que completou doze meses, vem sendo realizada por uma Comissão Partidária com profissionais da educação, incluindo uma representante da direção do Sepe e representantes do governo.


Até o momento, resultou a elaboração de um relatório contendo os itens até então discutidos, que será em breve divulgado. Pela avaliação prévia de todo o processo, constatou-se que o novo texto, apesar de alguns avanços, mantém princípios contrários aos defendidos pelo sindicato em seus diversos fóruns, como a meritocracia.

Diante do quadro, a categoria junto ao seu sindicato deverá também analisar e avaliar o resultado desta revisão e tomar a decisão de modo coletivo e democrático em fórum próprio. A participação do sindicato continuará se pautando no sentido de buscar avançar e melhorar o texto ainda em vigor, até nova deliberação.




Só a luta transforma a vida!


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Florestan Fernandes após 19 anos e o pensar sobre o Brasil



Por Sérgio Botton Barcellos

Passou-se um mês que mais três importantes pensadores brasileiros da atualidade, Rubem Alves, Ariano Suassuna e Plínio de Arruda Sampaio, partiram dessa vida. Todos deixaram, à sua maneira, um legado importantíssimo, seja na literatura, na área da educação e na política. Ao constantemente revisitar eles e lembrar de tantos outros, dias atrás me intriguei e relembrei que no dia 10 de agosto em 1995, há 19 anos, havia partido outro desses tipos que encantam e motivam a muitos, que foi Florestan Fernandes.

Não se trata de querer, com essa reflexão, ser porta voz de algo, mas a partir de um ponto de vista bem particular relembrar de alguma forma a importância da obra de Florestan Fernandes. Uma pessoa de biografia interessante e comum a muitos brasileiros que batalham dia a dia pela vida, mas ao mesmo tempo com uma trajetória incomum pelo nível de reflexão e dos debates que propôs ao Brasil como sociólogo e militante. Ele foi dessas figuras que, assistindo uma entrevista sua pela internet ou lendo alguns dos seus livros, não nos deixa esquecer que vivemos em sociedade e como não existimos um sem o outro e somos todos responsáveis de alguma maneira pela vida que temos em conjunto. O Documentário "Florestan Fernandes, o mestre”, por exemplo, mostra a sua trajetória pessoal, intelectual e política de forma mais detalhada.

Engraxate, garçom, vendedor de medicamentos, estudante de ciências sociais na USP, professor assistente e professor titular da USP, teve uma importante e destacada atuação na consolidação das ciências sociais e do campo de conhecimento da sociologia críticano Brasil. Em meio a essa trajetória acadêmica reconhecida e de destaque, Florestan, em abril de 1969, com a intensificação da ditadura militar no Brasil com o Ato Institucional nº 5, é forçado a deixar a cátedra de Sociologia na USP, sendo aposentado compulsoriamente, e se exila fora do Brasil. Nesse período ele não podia mais aparecer em público, escrever para jornais, manifestar sua oposição à ditadura no país. Segundo ele, esse acontecimento foi "um processo de desabamento de sua relação com o mundo intelectual”. Logo em seguida foi lecionar na Universidade de Toronto, Yale e Columbia.

O período de exílio durou até 1972, mas mesmo de volta, ele relatouque se viu "[...] isolado, eu vi amigos e companheiros que sequer se lembravam de mim, eu fiquei prisioneiro da família. […] De repente, me vejo diante de um curso e da necessidade de engolir a condição de professor, que eu não queria engolir de novo. Realmente o que eu queria era exatamente voltar a uma atividade militante e só militante. Daí essa tensão, essa frustração.” Na época, Florestan declarou em uma carta que:
A colonização externa da vida intelectual brasileira, através da universidade, não só se restabeleceu, como se institucionalizou. Hoje, fazer carreira aí vai junto com lavagem de cérebro, aqui ou aí. Ele deve saber disso, pois está tão em contacto com essa realidade quanto eu. Não lutei tanto para ver essa regressão. E, para mim, o sentido do trabalho que pretendíamos fazer se perdeu. O pior é que não se perceba porque... Uma regressão neocolonial institucionalizada nas duas pontas, é uma realidade concreta e palpável. Se você mostrar isto para a Heloísa e o Paulo, eles poderão explicar ao Carlos Guilherme o porquê do meu título. Não se trata apenas de um ‘endurecimento interno’. Trata-se, também, do fato que o made in Brazil é determinado a partir de fora, com intensidade que não poderemos controlar dadas as proporções do fenômeno. (carta à Myriam, 25 de abril de 1977).

Florestan, como disse certa vez, foi para o exílio como "sociólogo e socialista” e retornou "socialista e sociólogo”. E é nesse período que publica uma de suas obras cruciais, "A Revolução Burguesa no Brasil”, que havia começado a escrever em 1966. O objetivo, segundo ele, era dar uma "[...] resposta intelectual à situação política que se criara com o regime instaurado em 31 de março de 1964”. Incompleto devido à sua aposentadoria, ele retomou o trabalho, redigindo a terceira parte do livro no segundo semestre de 1973.

Fernandes (1975) discutiu que após a "independência” do Brasil, isto é, com a implantação de um Estado nacional, foram lançadas as bases para a formação do chamado "Brasil moderno”, ainda marcado por contrastes sociais e econômicos agudos que configuraram a sua dualidade estrutural. A formação do aparelho de Estado no Brasil se apresentou como garantidor da dominação política dos estamentos senhoriais e revelou novas conexões funcionais com a organização econômica, orientando-se a proteger e a fortalecer a iniciativa privada e assumindo encargos que buscavam garantir certos privilégios, como a continuidade da mão de obra escrava e a criação de serviços públicos (FERNANDES, 1975).

Nesse processo, evidentemente, coube aos (às) negros (as) a exclusão social, pois o processo imigratório colocado em prática pelo governo brasileiro no início do século passado priorizou a utilização de força de trabalho originária da Europa (FERNANDES, 1978). Desenvolve-se, então, o modelo de capitalismo dependente, na conceituação dada por Florestan Fernandes (1973; 1975), pois a industrialização teria sido realizada sem rompimento com a dependência econômica aos países capitalistas centrais, considerados desenvolvidos, e sem o rompimento com a oligarquia rural e a emergência das novas elites dominantes. A partir da tipificação de "possuidores de bens” e "não-possuidores de bens”, ele mapeou o que ele considerava classes sociais no Brasil e colocou em evidência que as elites possuíam interesses de classe semelhantes e a mesma situação de classe.

Nesse sentido, Heloísa Fernandes (2005) explicou que o pai
[...] manteve a ideia de que a sociologia clássica, que ele denominava sociologia da ordem, detinha e expressava potencialidades criadoras, vinculadas à história e à inquietação intelectual, diferentemente da nova sociologia da ordem, aquela da fase monopolista do capitalismo, que perde a dimensão histórica e que ele denomina de "sociologia de defesa ativa da ordem”; quando o sociólogo tende a se tornar mero "paladino da ordem”, que ele concebe como um "problema técnico” e não mais histórico.
Florestan Fernandes (1976; 1977) de diversas formas deixou registrada essa tensão constante entre a disciplina científica e a atividade política, tendo o desenvolvimento do saber como uma ferramenta de luta por igualdade social e comprometida com alternativas científicas e políticas não vinculadas a uma forma de reflexão restrita, absolutista e sectária.

Com essas e outras tantas leituras das obras de Florestan é possível refletir sobre a nossa atualidade e a captar as nuances ao longo da história de como as elites e governos atuam na consolidação do sistema e ao mesmo tempo na repressão das lutas sociais. Ele trouxe à tona ao longo da sua produção intelectual a necessidade de pensar um país com caminho próprio e que se desenvolvesse (e não fosse desenvolvido) a partir dos seus equívocos e acertos próprios. Do mesmo modo, a preocupação em pensar o Brasil e a elaboração de outra experiência além da experiência eurocêntrica no Brasil se faz necessária atualmente e a leitura das obras de Florestan Fernandes se mostram atuais para refletirmos sobre a colonização do pensamento que segue nos impactando, seja na produção de conhecimento, seja na formação de cultura política.

Em 1975, Florestan passou por uma cirurgia de próstata e, ao receber uma transfusão de sangue, contraiu o vírus da hepatite C, responsável por um processo contínuo de debilitação da sua saúde. Nesse mesmo período ele adotou uma postura mais publicista produzindo artigos para jornal e textos. Em 1977, ele deu uma entrevista à Folha de São Paulo, no qual declaroualgo que também ajuda a pensar os dias atuais:
[...] Em 68 existiam movimentos de contestação cuja posição política era radical e que o governo qualificava de terroristas. Ou seja, o radicalismo de ambas as partes era muito grande. Os movimentos se qualificavam, se identificavam como revolucionários, ao mesmo tempo em que não procuravam se concentrar na cidade mas se alastrar pelo campo. Atualmente, os processos de protestos se conformam muito mais em termos de soluções dentro da ordem, quer dizer, de aceitar a ideia ditada pelo governo de que a contestação deve ser legal por um lado e não ser revanchista, por outro. Este aspecto do governo determinar os limites do protesto é uma diferença profunda [...]. Porque era muito difícil obter adesões, principalmente nos setores de classe média e alta - que, afinal, apoiavam firmemente o governo, condicionados pelo chamado "milagre econômico" que naquele instante dava condições de repartir o bolo, cada grupo recebendo sua fatia.

Alguns anos mais tarde, em maio de 1986, ocorreu mais uma mudança na trajetória de Florestan e ele ingressa no Partido dos Trabalhadores (PT). Em seguida, concorreu a Deputado Federal por São Paulo e se elegeu com 50.024 votos, a quarta maior votação do Partido perdendo apenas para Lula, Plínio de Arruda Sampaio e Luiz Gushiken. Na Assembleia Constituinte, ocupou a subcomissão de Educação, Cultura e Esportes, tendo apresentado diversas emendas as quais foram integradas ao texto final, dentre elas a que garante a autonomia das universidades.

No segundo mandato, em 1993, apesar de o PT ter decidido não participar da revisão constitucional, ele participou. Um dos exemplos do destaque de Florestan nos debates foi sua proposta de emenda constitucional, que na época não entrou na pauta de votação, mas que atualmente é realidade, a saber, a inclusão das medidas afirmativas para população negra na Constituição. Segundo ele, essa era a forma de "corrigir uma injustiça que desgraça as pessoas e as comunidades negras”. Notadamente dedicou seu trabalho no parlamento à educação. Isso o levou a diversos embates, em seu segundo mandato, com o senador e antropólogo Darcy Ribeiro (PDT), durante as discussões e disputa pela tomada de rumos na elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

No fim do segundo mandato, a condição de saúde de Florestan Fernandes estava delicada e o fato de ter conhecido o Legislativo "por dentro” o desanimou de tentar mais uma eleição. Em uma entrevista em 1994 ao Programa Roda Viva ele falou sobre esse processo e a sua pouca empolgação em concorrer novamente. Sobre a sua condição socialista no PT e sobre as contradições e limitações que o Partido já apresentava naquela época, ele foi enfático: "Não que eu seja um peixe fora da água, mas qual a alternativa que me resta? Ou eu volto à minha condição de militante solitário ou eu fico no PT tentando acompanhar a marcha do partido. Se essa marcha se revelar deficiente ou indesejável, aí eu volto a minha condição de militante solitário e eu sempre me dei bem com ela, pois eu sempre consegui falar para plateias grandes, agitar ideias.”

No dia 10 de agosto de 1995, Florestan Fernandes faleceu no Hospital do Servidor Público em SP, onde quis ser atendido, pois para ele "esse hospital que tem que cuidar de mim”. Não resistiu a uma segunda cirurgia acompanhada de falha médica e faleceu. O "socialista e sociólogo” descansou.

Além de uma biografia inspiradora e de uma vasta obra, Florestan Fernandes deixou reflexões e debates registrados que auxiliam a pensar o Brasil na atualidade e a compreender o nosso país ao longo da história. Lembrar, mesmo que de forma limitada nesse breve escrito, que no dia 10 de agosto fez 19 anos que ele partiu, não é apenas relembrar alguém de história singular, é manter acesa a utopia de que é necessário seguir lutando por um Brasil mais justo e com igualdade social e que a universidade pode e deve estar mais engajada nos debates e lutas sociais do seu tempo histórico.




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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Núcleo realiza assembleia estatutária em 14 de agosto para eleição de representantes de escolas junto ao Conselho Deliberativo


No dia 14 de agosto, quinta-feira, o Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu realizou sua décima sétima assembleia local deste ano. Desta vez a categoria foi convocada em atendimento ao chamado do Sepe/RJ (Sepe Central) para a eleição de representantes de escolas junto ao Conselho Deliberativo, conforme o Estatuto da entidade.

A pauta também incluía a Campanha Salarial unificada de 2014.  A rede municipal de Rio das Ostras tem sua data-base em outubro, quando a Prefeitura costuma anunciar o reajuste anual para o conjunto dos servidores municipais, incluindo os profissionais de educação.

A categoria deve estar atenta às seguidas políticas oficiais de conceder um reajuste salarial pífio, a cada ano, acompanhado de um discurso de "valorização dos servidores públicos". A força do nosso movimento está na nossa unidade de ação, preservada a pluralidade de opiniões.

Da pauta, ainda fez parte a análise e avaliação do atual processo de discussão para revisão do PCCV da educação de Rio das Ostras. Mais uma vez, foi lembrada e mantida a posição aprovada em diversos fóruns do Sindicato contrária a qualquer viés autoritário e meritocrático no conteúdo e na forma do Plano de Cargos, Carreira e Vencimentos.

Por fim, nesta assembleia foi tratada a situação de alguns profissionais grevistas da rede estadual que vêm sofrendo perseguições e retaliações do governo Pezão/Risolia. O Núcleo tem acompanhado e defendido esses casos junto ao Sepe/RJ.

A última greve unificada das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro foi mais um marco na luta em defesa da escola pública e de seus profissionais.

Só a luta transforma a vida!


Diretoria do Sepe Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu

Sepe - Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu
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