terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

SERVIÇO: Permuta de professores(as) entre redes de ensino



O Sepe Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu, atendendo a solicitações, está disponibilizando o SERVIÇO de cadastro de professores(as) interessados em realizar permuta entre as redes de ensino onde trabalham.
                      
Para isso, devem enviar para o e-mail do Núcleo (sepe.riodasostrasecasimiro@gmail.com) o nome completo, município e escola de origem, disciplina(s) de atuação e município para o qual deseja permutar. Podem também enviar telefone(s) para eventuais esclarecimentos. O Núcleo manterá sigilo com relação aos dados pessoais.

Quando identificados os professores com interesses comuns, o Núcleo fará contato entre os mesmos. Os encaminhamentos administrativos ocorrerão por conta dos interessados.

Este serviço será mantido enquanto houver demanda para tal. O Núcleo está à disposição para mais informações.

Só a luta transforma a vida!


Diretoria do Sepe Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu
Sepe - Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu
End.: Alameda Casimiro de Abreu, 292 – 3º and. Sl. 8 – Centro – Rio das Ostras
Tel.: (22) 2764-7730
Horário de Funcionamento: Segunda, Quarta e Sexta das 09h às 13h; Terça e Quinta das 
13h às 17h.
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Conversando com versos (112): "Lendo um antigo filósofo", de Hermann Hesse (1877-1962)




"Lendo um antigo filósofo"


O que ontem possuía encantos e nobreza,
Fruto de séculos de pensamentos raros,
De chôfre empalidece, murcha e perde o 
                                        [sentido, 
Como as gavinhas de uma partitura,

Em que apagamos claves, sustenidos;
Desapareceu de um edifício
O centro mágico de gravidade,
A gaguejar vacila, desmorona,
Num eterno ecoar,
O que tinha aparência de harmonia.

Assim também um rosto
Velho e cheio de sabedoria, 
Que idolatrávamos, 
Amarrota-se e, pronto para a morte, 
Tremula sua fulgurante luz espiritual, 
Em um jôgo lastimoso e erradio
De rugas miudinhas.

Assim também um elevado sentimento
Pode em nossos sentidos, num instante,
Em esgares transformar-se em dissabor, 
Como se há muito possuísse dentro de si
O saber de que tudo apodrece,
Tudo tem de murchar e de morrer.

E sôbre êsse nojento vale de cadáveres
Se estira dorido, e no entanto incorrupto,
O espírito saudoso de fanais ardentes,
Combate a morte e torna-se imortal.

Tradução:  Flávio Vieira de Souza



Fonte: Hesse, Hermann. O jogo das contas de vidro. 8ª ed. Rio de Janeiro: Record, s/d, p. 356




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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Núcleo tem plantão do Departamento Jurídico em 19 de fevereiro




No dia 19 de fevereiro, quinta-feira, ocorreu mais um plantão do Departamento Jurídico, na sede, com a presença do advogado do Sepe/RJ (Sepe Central). Como de praxe, contou com a presença de diretores do sindicato, que trataram das demandas das diferentes redes de ensino: estadual e municipais.




Entre os vários temas tratados , se destacam: a) Casos de professores grevistas perseguidos pela SEEDUC, que o Sepe tem acompanhado, juridica e administrativamente; b) Pesquisa de ação judicial sobre a criação da GLP (Gratificação por Lotação Prioritária) na rede municipal de Rio das Ostras, em substituição às horas extras suspensas; reenvio de ofício ao Ministério Público, contendo problemas desta rede, como a nova contratação de contêineres, em vez de construção de salas de aula, entre outros.



Só a luta transforma a vida!


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O desafio da retirada estratégica


Por Wladimir Pomar

O PT e, em geral, a esquerda, parecem não haver se dado conta de que a vitória eleitoral de Dilma foi, ao mesmo tempo e contraditoriamente, uma profunda derrota política. A ausência de uma avaliação adequada a respeito tem conduzido o PT e os demais partidos que contribuíram para a derrota eleitoral de Aécio, assim como o governo Dilma, a ações erráticas e a novas derrotas políticas, seja no próprio campo político, seja nos campos social e econômico.

Em sentido contrário, as forças conservadoras e reacionárias perceberam logo a profundidade daquela derrota. E estão operando rápida e eficazmente para explorar o terreno e avançar em seu programa de retomada total do poder. O que inclui reformas políticas em sentido inverso àquilo que as ruas exigiram e ao que as forças democráticas e progressistas demandaram, assim como mudanças importantes na política externa, conforme sugeridas por subordinados aos impérios estadunidense e europeu, como FHC etc.

Conservadores e reacionários aproveitam-se do escândalo da corrupção na Petrobras, e do ajuste fiscal proposto pelo governo, para contrapor-se ao financiamento público das campanhas eleitorais, sob o argumento de que o dinheiro público não deve ser gasto com políticos. Apresentam-se como defensores dos recursos públicos ao exigir que  as empresas envolvidas na corrupção das obras da Petrobras sofram as consequências dos atos cometidos por seus diretores, acusando o governo de tentar proteger aos corruptores ao pretender que tais empresas continuem realizando as obras para as quais foram contratadas. E procuram tirar o máximo proveito dos erros políticos relacionados com a proposta de um ajuste fiscal que atinge exclusivamente aos trabalhadores.

Essa direita conservadora e reacionária, uma parte da qual faz parte da coalizão de governo, não pretende apenas enquadrar o governo Dilma e pautar suas ações. Ela pretende recuperar toda a autoridade e privilégios, dos quais se viu momentaneamente em risco com a subida do PT ao governo. E também reformar as estruturas do Estado e a própria sociedade brasileira no sentido de evitar que algo idêntico a um governo democrático e popular volte a se repetir, e que a democracia seja total e unicamente entendida como o direito de votar.

Tendo como vantagem sua esmagadora maioria parlamentar, essa direita pode dar-se ao luxo de implementar, “de forma democrática”, todos os retrocessos programados, aí incluindo o fim do sistema de partilha na exploração do pré-sal, e a retomada das privatizações de estatais, conforme exigido pelas grandes corporações americanas e europeias. E, pode até mesmo impor um impeachment à presidenta.

Diante de tudo isso, a reação do PT e de várias figuras públicas da esquerda tem sido  de total descompasso com a realidade. O PT, em especial, incluindo sua parcela que está no governo, não acordou ainda para o grau de sua derrota política e para a necessidade de realizar uma retirada estratégica que o leve a reorganizar suas forças e ganhar tempo para os embates decisivos a que seus adversários querem levá-lo.

Reorganizar forças significa adotar uma série de medidas que, pelo menos, reforcem a capacidade da direção política, livrem o partido dos pontos fracos que o tornam alvo predileto dos ataques adversários, estabeleçam e difundam com vigor um programa de governo de defesa dos interesses populares, façam seus dirigentes e militantes se voltarem para o trabalho na base da sociedade, e adotem novas táticas contra a ofensiva da direita.

Não basta reconhecer os erros cometidos, como é o caso de dirigentes que se viram envolvidos em casos de corrupção. Esse envolvimento, de forma inocente ou não, tem causado prejuízos incalculáveis ao PT. Em tais condições, esses dirigentes, ao invés de viverem reiterando sua inocência, ou levantando o punho em sinal de luta, deveriam pedir desculpas ao povo brasileiro e à militância por haverem baixado a guarda e se deixado cair em armadilhas. E, sem vacilações, deveriam declarar-se desligados do partido até que sua inocência seja comprovada.

Na ausência de um ato de coragem como esse, o PT deveria tê-los afastado publicamente, para dar uma demonstração de que não compactua com a baixa da guarda diante da corrupção. No entanto, até mesmo em casos evidentes de envolvimento em práticas condenáveis, a direção do partido vacilou em adotar as medidas corretivas necessárias para deixar clara sua posição de princípio. O que o levou a ser crescentemente considerado, mesmo para grande parte dos que acreditavam e simpatizavam com ele, um partido igual aos outros.

Algo idêntico pode ser dito em relação ao atraso em reconhecer que o crescimento econômico via consumo estava esgotado e que era necessário passar urgentemente a um crescimento via investimentos produtivos na indústria e na pequena e média agricultura de alimentos para o mercado interno. O que já era evidente desde o início do primeiro governo Dilma e, não sendo atacado, em algum momento levaria a uma crise, como a que estamos vivendo agora.

O pior é que, ao invés de corrigir esse erro através da redução dos juros, da administração do câmbio, e da adoção de uma política de atração de investimentos externos destinados a adensar as cadeias produtivas industriais e da agricultura para o mercado interno, o governo preferiu adotar um ajuste fiscal que penaliza os trabalhadores e dá para a direita política, de bandeja, a defesa dos direitos trabalhistas.

Portanto, é urgente realizar um cavalo de pau, adotando um programa corajoso para sair da crise econômica, que começa a se transformar em crise social. Tal programa precisa ter como indicadores principais a defesa dos direitos e conquistas dos trabalhadores, a geração de empregos, os investimentos na indústria, a redução dos juros, e a administração do câmbio.

Inclui, ainda, a mobilização dos funcionários e trabalhadores da Petrobras e outras estatais para participarem do saneamento de suas empresas e fazê-las voltar a ter o papel estratégico que devem exercer no desenvolvimento do país. E  precisa mobilizar milhões de pequenas e médias empresas para assumirem as obras que o oligopólio das empreiteiras corruptoras está sendo obrigado a deixar de lado. Tudo isso demanda intensificar as relações com os demais países da América Latina e do Caribe, agilizar as medidas acertadas com os Brics, e adotar políticas de negociação e proveito mútuo com os Estados Unidos e a União Europeia.

Paralelamente, talvez o PT necessite reformular sua proposta de reforma eleitoral, focando-a exclusivamente no fim do financiamento privado das campanhas eleitorais. Esta é a base da corrupção endêmica que coloca parlamentares a serviço de interesses privados. Mas a proposta de financiamento público abre a chance hipócrita de a direita identificar o financiamento privado com a “defesa do erário” e  com o “combate à corrupção pública do PT”. Essa mudança tática pode ajudar o PT e a esquerda a mobilizarem camadas populares e democráticas para opor-se às reformas conservadoras e reacionárias em curso no Congresso.

Finalmente, mas longe de completar as mudanças a serem realizadas para reorganizar suas forças, o PT precisa fazer com que seus dirigentes e militantes voltem a estar indissoluvelmente ligados às camadas populacionais da base da sociedade. Nesse sentido, talvez seja o momento de retomar a obrigatoriedade de organização e participação em núcleos de base, e de tomar medidas para elevar seu nível de comunicação com as diversas camadas da sociedade. Um partido sem grupos e instrumentos de comunicação de massas é incapaz de disputar a opinião pública.

Também seria positivo proibir que “mandatos” parlamentares ajam como organizações de fato. E seria um exemplo salutar, mesmo não sendo uma exigência legal, que os deputados e senadores do PT não possam ser reeleitos por mais de dois mandatos sucessivos. Medidas desse tipo podem contribuir para que o PT retome uma relação mais equilibrada entre a luta social e a luta institucional, e  certamente podem fazer com que comece a retomar o prestígio que perdeu nestes últimos anos.

Uma retirada estratégica desse tipo, como se pode notar, é uma das ações políticas mais complexas que um partido deve enfrentar para salvar-se quando é derrotado e precisa recuperar suas forças para não ser aniquilado. A história, mesmo a brasileira, está cheia de exemplos de partidos, de esquerda, de centro e de direita, que foram incapazes de realizá-la com sucesso e feneceram de diferentes formas.

O PT, após 35 anos de vida, parece estar colocado diante desse desafio. Talvez seus dirigentes e militantes devessem aprender algo da história para superar o presente transe. É o que novos e velhos militantes ainda têm alguma esperança de ver.




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Entregando os dedos para salvar os anéis

Por Leo Lince


"passarinho que se debruça, o voo já está pronto"
(Guimarães Rosa,"Grande Sertão, Veredas")


Começou mal, muito mal, o segundo mandato Dilma Rousseff. Uma embocadura que prenuncia catástrofes. Resolveu praticar logo no início do governo exatamente o contrário do que predicou na campanha eleitoral. Comparar as primeiras medidas com o discurso da campanha é um exercício que desemboca na mais brutal reversão de expectativa. Daquelas que provocam desgaste igualmente brutal e acelerado. Uma espécie de canto do cisne no dom de iludir. É doloroso, mas inevitável, constatar: a vaca tossiu e pode ir pro brejo.

O desconforto e a apreensão dos prejudicados e a voracidade armada e eufórica dos beneficiários não deixam margem para dúvidas sobre o sentido geral das medidas anunciadas. A escolha do Ministro da Fazenda, entre todos o mais ortodoxo e fiscalista, define os rumos do novo governo. O mundo da alta finança, que já abocanhava quase metade daquela "torta" do nosso orçamento comida pelos juros da dívida, agora vai tomar conta da torta inteira. Os economistas de banco estão com a carta branca, a faca e o queijo, o Tesouro e a tesoura nas mãos. Com isso, abriu-se a temporada dos cortes definidos no protocolo do modelo liberal-periférico.

Nas primeiras medidas anunciadas, o mundo do trabalho já sentiu o aço frio da tesoura. O seguro desemprego é uma proteção para quem vive do trabalho e se vê, momentaneamente, no olho da rua. O abono salarial é para quem ganha merreca. Pensão por morte e auxílio doença são amparos em situações de dolorosa dificuldade. O seguro defeso garante renda mínima para pescadores nos períodos em que a lei, corretamente, os impede de pescar. São marcos civilizatórios, direitos duramente conquistados pelos que vivem do trabalho. Os potenciais beneficiários de tais programas, os muito pobres, verão a transferência do que foi cortado para a elite milionária, os muito ricos. Uma política elitista, conservadora, antissocial, na qual o fundamentalismo de mercado e a saúde da moeda estão em primeiro lugar.

A insistência no que já está falido

O argumento segundo o qual tais medidas foram tomadas para corrigir distorções (que, por certo, existem) é de um ridículo soberbo. Corrigir distorções cortando benefícios equivale a amputar a perna para curar unha encravada. Também não vale dizer que direitos não foram suprimidos. Mantidos na letra da lei, eles sofreram o arrocho de um torniquete que estrangula a economia política do trabalho em benefício dos ganhos da alta finança. Mais grave do que os cortes anunciados é o rumo para onde apontam. O perigo maior mora na escolha feita. Uma escolha que adquiriu ao longo da história universal um nome aterrorizante para os que vivem do suor do próprio rosto: socialização dos prejuízos.

A mídia grande, ponta de lança ideológica do totalitarismo financeiro, já traçou o roteiro dos passos seguintes. A "Folha de São Paulo" e "O Globo", os dois maiores jornais de circulação nacional, fizeram editoriais no mesmo dia (29/01) e com a mesma posição essencial. Apoiam e elogiam as medidas tomadas. E afiam a navalha para o lance seguinte. A FSP ironiza o discurso da retomada, passado o remédio amargo, das políticas redistributivas. São promessas. A realidade é a política macroeconômica "que implica cortes drásticos, inclusive nos gastos sociais". O editorial de "O Globo", sempre imperativo, aponta o caminho a ser seguido pela presidente. Começa no título, "Dilma assume o ajuste fiscal, mas precisa ser coerente", e capricha no arremate: "(Ela) necessitará manter a coerência nos próximos meses, quando o ajuste gerar visíveis efeitos negativos: mais alguma inflação – devido à correção de preços públicos irreais – e desemprego, resultado de uma provável curta recessão". Ou seja, ajoelhou tem que rezar.

A propalada política da "austeridade", que serve de imediato ao interesse dos banqueiros, possui indiscutível eficácia para azeitar as roletas do cassino financeiro. No curto prazo, consenso macabro, todos dizem que tudo tende a piorar. Até o homem forte do novo governo, o ministro "mãos de tesoura", já admitiu sorridente a piora nos índices da inflação, no desemprego e a retração programada da economia. Nada garante que, no longo prazo, tal política produza algum outro tipo de eficácia. Os que mais ganharam na alta asseguram seu quinhão na rebordosa da crise e, ao mesmo tempo, buscam garantir o futuro da nossa triste condição de paraíso dos rentistas.

Trata-se de um tipo de política cada vez mais contestada, nos quatro cantos do mundo e por formuladores e movimentos massivos das mais variadas procedências. Basta olhar para a Grécia. Lá, onde a democracia de novo se reinventa, o Syriza é a primeira experiência, na forma de governo, da recusa radical a este capitalismo da espoliação sem freios. Na Espanha, o "Podemos" segue o mesmo caminho. O papa Francisco, figura emblemática dos paradoxos do nosso tempo, faz ecoar o clamor dos desvalidos a partir das muralhas vetustas do Vaticano. Até Martin Wolf, editor e principal colunista do insuspeito "Financial Times", evoluiu de opinião. Segundo ele, a velha política monetária, o sistema de metas de inflação, o famoso tripé, criou um monstro que devora por dentro as economias. Depois de afirmar que, hoje, a confiança ingênua na estabilidade produzida por um sistema financeiro desregulado desapareceu, talvez por uma geração, conclui: "é um modelo maravilhoso apenas para os banqueiros".

Para os ricos, tudo

Mesmo sem grandes rupturas com o modelo que faz água no mundo inteiro, um governo que não estivesse entregue aos desígnios da casta financeira poderia buscar o reequilíbrio de suas contas por outras vias. O elementar bom senso recomendaria cortar onde tem gordura. Mais imposto sobre a especulação financeira, sobre a remessa de lucros para o exterior, sobre os ganhos na bolsa, sobre o juro estratosférico dos cartões de crédito, cerco à evasão fiscal das grandes empresas, correção justa na tabela do imposto de renda. Documento elaborado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), publicado na FSP (06/11/14), revela manobra de bancos brasileiros, orientados pela Pricewaterhouse Coopers, para burlar, via elisão fiscal, o imposto de renda. Uma simples troca de papeis, através de subsidiárias instaladas em paraíso fiscal (Luxemburgo), resultou em duzentos milhões de reais a menos no imposto devido (exercício 2008/2009) pelo Bradesco e o Itaú-Unibanco. Neste tipo de caso, que se repete, o Leão da Receita não ruge.

O sistema bancário brasileiro é o menos taxado e o mais lucrativo do mundo. O Bradesco, que indicou o novo homem forte do governo, exibe recordes de lucro líquido a cada balanço trimestral ao longo das últimas décadas. Durante 2014, ano de PIB estagnado, ele ultrapassou a espantosa quantia de 15 bilhões de lucro líquido declarado, 25% a mais do que ano anterior, que já fora uma exorbitância. O lucro líquido do Itaú, no mesmo ano, passou dos 20 bilhões. Entre as despesas federais, a que mais cresceu foi o pagamento de juros da dívida. O governo entregou aos credores, no ano passado, mais de 250 bilhões de reais, uma década de bolsa família.

Para aqueles que persistem na crítica, pela esquerda, dos caminhos trilhados ao longo dos últimos vinte anos, o foco do debate não pode se limitar ao tema do "ajuste". Tendo como ponto de referência as condições de vida da maior parte da nossa população e as nossas reais potencialidades represadas, o debate que se impõe é sobre a mudança no modelo econômico que, desde os anos 90, vem se impondo no Brasil. Esse modelo, caracterizado pelos professores Reinaldo Gonçalves e Luiz Filgueiras como liberal-periférico, esgotou-se. Essa é a questão central que nos remete para o agravamento da crise econômica, política e social.

Segundo o economista Paulo Passarinho, estamos na encalacrada de um círculo vicioso. O câmbio flutuante e valorizado, garantia da estabilidade de preços, impõe taxas reais de juros elevadas. Estas, por sua vez, impactam a dívida pública. Para a manutenção da confiança dos investidores – na verdade, credores – exige-se que as contas públicas garantam uma margem de recursos para os juros devidos aos credores da dívida pública. Estes, assim, tornam-se os avalistas maiores da estabilidade monetária, que tem no câmbio flutuante e valorizado um dos seus pilares. Romper tal círculo é estratégico para pensarmos em uma nova ordem econômica, voltada para a geração e distribuição de renda, riquezas, empregos e justiça social para as maiorias. Para a construção de uma alternativa ao modelo falido, um conjunto de medidas pode ser o ponto de partida.

1 – Adoção de mecanismos de controle sobre os fluxos de capitais.

2 – Adoção de um regime cambial flexível e sob controle público estatal, de acordo com a estratégia de redução da vulnerabilidade externa do país, fortalecendo a produção interna industrial.

3 – Reestruturação dos padrões de administração da dívida pública, objetivando a ampliação dos prazos de vencimento dos títulos públicos e a redução gradual e consistente das taxas reais de juros.

4– Implantação de um processo de ampla e rigorosa auditagem da dívida pública, interna e externa, de acordo com as recomendações incluídas na CPI da Dívida Pública, realizada pela Câmara dos Deputados, com o objetivo de reduzir o estoque de uma dívida eivada de irregularidades.

5 - Completa reestruturação do Orçamento Geral da União, reduzindo-se drasticamente os gastos financeiros e respeitando-se as destinações constitucionais das receitas do Tesouro, da Seguridade Social e das estatais, como forma de sustentar investimentos e as despesas específicas de cada uma dessas três esferas.

6 – Encaminhamento imediato de medidas tributárias, visando a taxação de grandes fortunas e mudanças na atual estrutura do Imposto de Renda. Ampliação da faixa de isenção, criação de variadas e progressivas alíquotas de taxação da renda, visando estabelecer uma verdadeira justiça tributária, onde a progressiva taxação da renda e da propriedade (com a igual revisão completa da atual estrutura do ITR) se tornasse a principal fonte de receitas do Estado, desonerando-se a tributação sobre o consumo popular e tornando-o seletivo, de acordo com a essencialidade do bem ou serviço comercializado.

7 – Promover uma redivisão dos recursos tributários entre a União, os estados e municípios, incluindo a reestruturação das dívidas dos entes federados, de acordo com o processo de auditoria da dívida pública.

8 – Utilização dos bancos públicos e das empresas estatais como instrumentos estratégicos da política de ampliação de investimentos na infraestrutura logística e social, tendo como foco o fortalecimento e dinamização do mercado interno, através da canalização de recursos para as áreas da educação, da saúde, da habitação popular, do saneamento, da mobilidade urbana e do necessário processo de reforma agrária e agrícola, dentre outros.
À luta

São alguns pontos, aos quais outros devem se somar, de uma pauta a ser proposta aos movimentos sociais e demais forças políticas empenhadas na defesa do mundo do trabalho. Denunciar, resistir e barrar a investida dos donos do poder contra os trabalhadores. Controlar o fluxo de capitais, taxar fortunas, auditar a dívida são medidas que se colocam no contraponto radical ao modelo dominante. Os escolhidos para controlar as alavancas da política econômica do novo governo fogem como o diabo da cruz de tais medidas. Operam montados no piloto automático da primazia absoluta do capital financeiro: cortar custos, gastos sociais, empregos, salários, direitos. No cerne do governo e a serviço dos potentados do poder econômico, eles contam com o apoio entusiástico da mídia grande.

Vamos moer no áspero. Uma luta difícil, necessária e estimulante. Nela não se avança sem construir polos de unidade com outras dimensões do mesmo processo: a batalha pela democratização dos grandes meios de comunicação de massas e o movimento amplo (“desengaveta Gilmar”, fim do financiamento empresarial, iniciativa popular de lei) pela reforma política. O inimigo, poderoso, está na ofensiva. Barbas de molho. No enfrentamento duro, desigual e prolongado, a nossa funda inicial é a de Davi. Avante, companheiros!




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2015, ano da Palestina?


Por Emir Sader


Desde o assassinato de Yitzhak Rabin, em 1995, por um extremista de direita, Israel só caminhou para a direita, distanciando-se de qualquer solução política, negociada, para a questão palestina. Líderes e grupos de direita foram sendo sucedidos por outros líderes e grupos sempre mais à direita, em uma sucessão interminável de sectarismo e discriminação racista contra os palestinos.


 Paralelamente a sociedade israelense foi se tornando cada vez mais conservadora, contrapondo-se a qualquer negociação que permitisse aos palestinos ter seu Estado, da mesma forma que Israel tem o seu. O território palestino foi sendo cada vez mais ocupado militarmente pelas tropas israelenses, um território esquartejado pelos muros e pelos assentamentos, buscando Israel tornar inviável e insuportável viver na Palestina. As ofensivas cruéis e criminosas contra Gaza se tornaram uma pratica regular por parte do Exército e da Aviação israelenses.
    
Com o passar do tempo, duas votações esmagadoramente favoráveis nas Assembleias Gerais das Nações Unidas pelo Estado palestino, o reconhecimento desse Estado por um número cada vez maior de países, incluído o Parlamento Europeu, o mal estar que as reiteradas ofensivas de Israel sobre Jerusalem, sobre a Cisjordania, sobre Gaza, foram acentuando nos próprios Estados Unidos o processo de isolamento internacional de Israel. Ao mesmo tempo do reconhecimento internacional, a Palestina foi ocupando cada vez mais espaços institucionais, que passaram a reconhecê-la como Estado, da Unesco à Corte Penal Internacional.

  Mas falta ainda um elo para que seja reaberto o caminho definitivo de negociações políticas que levem ao cumprimento da decisão da ONU sobre o direito à existência do Estado palestino: um interlocutor interno em Israel, que parecia difícil de reaparecer. Até que a radicalização sectária do governo de Netanyahu, propondo que Israel se assuma definitivamente como Estado religioso, relegando formalmente os palestinos que aí vivem a cidadãos de segunda categoria, levou à ruptura do seu governo e à convocação de novas eleições gerais para março deste ano.

 O panorama eleitoral trouxe uma novidade. Depois de sair do governo, a líder do partido Hatnah, Tzipi Livni, se associou ao Partido Trabalhista, dirigido por Isaac Herzog, conquistando um surpreendente apoio para as eleições. Essa é a possibilidade de uma virada no quadro eleitoral e político e, ao mesmo tempo, na questão palestina, o elo que falta para que um verdadeiro processo de paz possa tornar realidade o Estado palestino. Uma vitória da coalizão de centro-esquerda seria esse elo que ainda falta, um interlocutor do lado de Israel.




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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Conversando com versos (111): "É noite. A noite é muito escura.", de Fernando Pessoa (1888-1935)



“É noite. A Noite É Muito Escura”


É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande 
                                                       [distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que 

                                                       [não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, 

                                                       [família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?



Fonte: Pessoa, Fernando, Obra poética. 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1983, p. 171



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