quinta-feira, 5 de março de 2015

Almoxarifado de Deus, oficina do diabo


 Por Leo Lince



Quando Deus fez o mundo, havia um lugar onde se guardavam as belezas naturais a serem distribuídas pelos quatro cantos do planeta. Concluída a obra da criação, percebeu-se que sobrara no sítio maravilhas em demasia. Como era o sétimo dia, reservado ao descanso, Ele houve por bem deixar tudo lá mesmo. Esse relato, a mais completa explicação para o prodigioso encanto de tal lugar, é de Monteiro Lobato. Segundo ele, o Rio de Janeiro foi o almoxarifado de Deus.



O mar em todas as suas cores e formas. As montanhas e florestas em recortes e volumes talhados no molde da harmonia. Uma pletora de beleza que propicia o exagero de festas. Aniversário, por exemplo, o Rio comemora três vezes a cada ano: a chegada, o padroeiro e a fundação, em datas aglomeradas no esplendor do verão.



No primeiro dia de janeiro, em 1502, os portugueses, inebriados, avistaram o que parecia ser a foz de um rio maior que o Tejo. Daí nos veio o nome: Rio de Janeiro. No primeiro de março de 1565, o capitão Estácio de Sá fundou o acampamento inicial. Daí nos veio o aniversário oficial. Dois anos depois, no dia 20 de janeiro, São Sebastião, na data de seu martírio, nos livrou, miraculosamente, dos calvinistas franceses. Daí nos veio o padroeiro.



O Rio é uma cidade mundial e, ao mesmo tempo, expressão concentrada da alma brasileira. Está no seleto leque de cidades que o mundo inteiro conhece e aprecia, mas se move ao som do pandeiro e do tamborim. Os atabaques da cultura popular ensolarada e as tradições libertárias do seu povo fazem do Rio, apesar do todos os percalços, um espaço permanente de experimento e criatividade.



Nem tudo, no entanto, são flores. A cidade foi sede da Corte e de suas intrigas. Foi capital de uma República rala, que por conservar o domínio oligárquico ainda não faz jus ao nome. Palco para muitos dos principais acontecimentos na nossa história, o corpo da cidade exibe as marcas dilacerantes do tumultuário processo político brasileiro.



Entre os males contra o Rio, o maior de todos é a pequena política. Os mercadores do interesse puro tomaram conta do templo majestoso e fizeram dele a oficina do diabo. Um desastre social, ético, ambiental, estético, cultural e político. Desviada de sua função maior, a política opera como um balcão de negócios. O chamado “urbanismo de mercado” espalha sua malha criminosa que destrói coisas belas e patrocina o caos.


Aos 450 anos de existência, o Rio navega entre a beleza e o caos. Ver a cidade reconciliada com a alegria inigualável da sua gente, sem dúvida, seria o melhor presente de aniversário. Mais Lota de Macedo Soares, que idealizou o Aterro do Flamengo, menos Eike Batista, que se estrepou ao querer privatizá-lo. Mais Brecht, cuja poesia nos ensina que "nada deve parecer impossível de mudar", menos Odebrecht, símbolo maior da voracidade cega da máquina mercante. Apesar das mãos atadas e do peito crivado de flechas, o santo padroeiro acredita no samba: o Rio ainda pode se salvar.



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quarta-feira, 4 de março de 2015

A praga da violência coletiva: L. Dowbor





LADISLAU DOWBOR é um conhecido economista, professor catedrático da PUC-SP, que une eonomia com ecologia no quadro de um humanismo aberto e orientado pelos direitos humanos, especialmente,dos mais pobres. Possui uma vasta experiência internacional. Não apenas sabe muito, mas pensa no que sabe. Face à crescente violência no mundo e também no Brasil vale a pena ler este seu trabalho de reflexão antropológica e política sobre a praga da violência. Ela está se disseminando perigosamente no Brasil, particularmente pelas redes sociais. Nenhuma sociedade se constrói sobre a violência, a prolongada raiva e amargura que criam um caldo propício para mais violência e assim para a destruição dos laços de convivência social. O artigo apareceu no dia 26 de fevererio de 2015 no seu site:Site: http://dowbor.org
lboff

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Nunca subestime o poder de pessoas estúpidas em grandes grupos um aluno um dia me perguntou o que eu achava do homem: naturalmente bom mas pervertido pela sociedade, na linha do “bom selvagem” de Rousseau, ou esta desgraça mesmo que vemos por aí, em estado natural? Na realidade, não acho nem uma coisa nem outra. Acho que temos todos imensos potenciais para o bem e para o mal, para o divino e a barbárie. Cabe a nós, que trabalhamos com o estudo da sociedade e em particular das instituições, pensar o que faz a balança pender mais para um lado ou para outro. Pois deixando de lado alguns traumas e deformações individuais, domínio dos psiquiatras, aqui nos interessa a misteriosa bestialidade coletiva de grandes grupos sociais.

Muitos dizem que a solução está na educação e na cultura. Tenho minhas dúvidas, pois sou de família polonesa, e vi refletido nas angústias dos meus pais o que tinham vivido frente ao nazismo. Ninguém irá pensar que os alemães eram um povo de baixo nível educacional ou cultural. E no entanto, com que entusiasmo vestiram as botas e as camisas negras ou marrons, com que elevado sentimento de dever cumprido matavam pessoas por serem diferentes, por um critério real ou imaginário. Cerca de 50% dos médicos alemães aderiram ao partido nazista. Isto é que é realmente preocupante. Estupidez é uma doença que pega.

Poder dar vazão ao que há de mais podre dentro de nós, de mais escuro em termos de ódio contido, de mais baixo em termos humanos, em nome de elevadas aspirações éticas, parece ser muito satisfatório. Os nazistas agiam em nome da pureza da raça. E erguiam bem alto a bandeira do “Gott mit uns”, Deus está conosco. Tornar-se de certa maneira o braço executivo da cólera divina parece ser profundamente agradável. Há gente disposta a morrer por esta satisfação.

Quem não leu O Martelo da Feiticeira, manual de interrogatório dos inquisidores católicos perdeu uma importante fonte de conhecimento sobre os nossos lados escuros. O manual recomenda, por exemplo, que os religiosos encarregados de torturar as possíveis feiticeiras as torturassem nuas, pois se tornam mais frágeis, e de costas para os torturadores, pois a era tal a perversidade destas mulheres que de frente para os torturadores poderiam comovê-los com suas súplicas e expressões de desespero. Eram religiosos, e o faziam em nome de Cristo.

Somos hoje mais civilizados? Sinto-me profundamente abalado, chocado, pelo bárbaro assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris, por profissionais da morte que matam em nome de Deus, e que claramente mostraram nos seus gritos que se sentiam como justiceiros que haviam cumprido o seu dever. São monstros? Se fossem, seria muito mais simples compreender e prevenir. Mas são seres humanos em torno dos quais se construiu uma muralha de valores que os protege de qualquer crítica. Se sentem pertencentes a uma comunidade que os apoia e recompensa, ou seja, praticam a barbárie em nome do bem. Podemos matar os terroristas, mas transformar a dinâmica que os forma é bem mais complexo.

Podemos tratar um psicopata, e proteger a sociedade dos riscos individuais. E uma sociedade doente? Quem não viu Os fantasmas de Abu-Ghraib, veja, é profundamente instrutivo. O documentário é montado a partir de selfies e de filmagens por celular de práticas de tortura no Iraque por jovens americanos, contra supostos inimigos. Tortura praticada no Iraque em nome da defesa dos direitos humanos, por um exército invasor, e por funcionários de empresas privadas de segurança terceirizadas para esta tarefa. Estes jovens são monstros? As imagens das torturas e dos risonhos rapazes circulam em todo o mundo islâmico. Com que impacto e efeito multiplicador?

Hoje temos tortura sistemática aplicada pelo sistema repressivo (Mossad, Shin Bet e outros) em Israel. Em Guantánamo quando os prisioneiros tentam morrer para escapar ao sofrimento se lhes introduz à força alimento pelo nariz ou pelo anus, tudo em nome do bem, como em nome de Deus os fanáticos do ISIS decapitam prisioneiros ou os do Boko Haram raptam crianças.

A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e organizam a sua expressão em nome da justiça, de Deus, da pátria, da pureza racial ou o que seja.



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terça-feira, 3 de março de 2015

Sepe/RJ convoca para assembleia da Rede Estadual dia 7 de março






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Conversando com versos (114): "Algum dia você poderia?", de Vladimir Maiakóvski (1893-1930)




"Algum dia você poderia?"


Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.

Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?


Tradução de Haroldo de Campos




Fonte: Internet:  poemargens.blogspot.com.br/2012


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O que precisa ser incorporado ao processo de educação



Por Leonardo Boff

Geralmente o processo educativo da sociedade com suas instituições como a rede de escolas e de universidades estão sempre atrasadas em relação às mudanças que acontecem. Não antecipam eventuais processos e custam-lhes fazer as mudanças necessárias para estar à altura deles.

Entre outras, duas são as grandes mudanças que estão ocorrendo na Terra: a introdução da comunicação global via internet e redes sociais e a grande crise ecológica que põe em risco o sistema-vida e o sistema-Terra. Podemos eventualmente desaparecer da face da Terra. Para impedir esse apocalipse a educação deve ser outra, diversa daquela que dominou até agora.

Não basta o conhecimento. Precisamos de consciência: uma nova mente e um novo coração. Precisamos também de uma nova prática. Urge nos reiventar como humanos, no sentido de inaugurar uma nova forma de habitar o planeta com outro tipo de civilização. Como dizia muito bem Hannah Arendt:”podemos nos informar a vida ainteira sem nunca nos educar”. Hoje temos que nos reeducar e no reinventar como humanos.

Por isso, acrescento às dimensões acima referidas, estas duas: aprender a cuidar e aprender a se espiritualizar.

Mas antes faz-se mister, previamente, resgatar a inteligência cordial, sensível ou emocional. Sem ela, falar do cuidado e da espiritualidade faz pouco sentido. A causa reside no fato de que todo sistema moderno de ensino se funda na razão intelectual, intrumental e analítica. Ela é uma forma de conhecer e de dominar a realidadade, fazendo-a mero objeto. Sob o pretexto de que a razão sensível impediria a objetividade do conhecimento, foi recalcada. Com isso surgiu uma visão fria do mundo. Ocorreu uma espécie de lobotomia que nos impede de nos sentir parte da natureza e de perceber a dor os outros.

Sabemos que a razão intelectual, como a temos hoje, é recente, possui cerca de 200 mil anos quando surgiu o homo sapiens com seu cérebro neo-cortical. Mas antes dele, surgiu há cerca de 200 milhões de anos, o cérebro límbico, por ocasião da emergência dos mamíferos. Com eles, entrou no mundo o amor,o cuidado, o sentimento que se devotam à cria. Nós humanos, esquecemos que somos mamíferos inteletuais. Logo, somos fundamentalmente portadores de emoções, paixões e afetos. No cérebro límbico reside o nicho da ética, dos sentimentos oceânicos como os religiosos. Antes ainda há 300 milhões de anos, irropeu o cérebro reptilínio que responde por nossos reaçõs instintivas; mas não é o caso de abordá-lo aqui.

O que importa é que hoje temos que enriquecer nossa razão intelectual com a razão cordial, muito mais ancestral, se quisermos fazer valer o cuidado e a espiritualidade.

Sem essas duas dimensões não iremos nos mobilizar para cuidar da Terra, da água, do clima, das relações inclusivas. Precisamos cuidar de tudo, sem o que as coisas se deterioram e perecem. E então iríamos encontro de um cenário dramático.

Outra tarefa é resgatar a dimensão da espiritualidade. Ela não deve ser identificada com a religião. Ela subjaz à religião porque é anterior a ela. A espiritualidade é uma dimensão inerente ao ser humano como a razão, a vontade e sexualidade. É o lado do profundo, de onde emergem as questões do sentido terminal da vida e do mundo.

Infelizmente estas questões foram tidas como algo privado e sem grande valor. Mas sem sua incorporação, a vida perde irradiação e alegria. Mas há um dado novo: os neurólogos concluiram que sempre que o ser humano aborda estas questões do sentido, do sagrado e de Deus, há uma aceleração sensível nos neurônios do lobo frontal. Chamaram a isso “ponto Deus” no cérebro, uma espécie de órgão interior pelo qual captmos a Presença de uma Energia poderosa e amorosa que liga e re-liga todas as coisas.

Avivar esse “ponto Deus” nos faz mais solidários, amorosos e cuidadosos. Ele se opõe ao consumismo e materialismo de nossa cultura. Todos, especialmente os que estão na escola, devem ser iniciados nessa espiritualdidade, pois nos torna mais sensíveis aos outros, mais ligados à mãe Terra, à natureza e ao cuidado, valores sem os quais não garantiremos um futuro bom para nós.

Inteligência cordial e espiritualidade são as exigências mais urgentes que a a tal situação ameaçadora nos faz.


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segunda-feira, 2 de março de 2015

Núcleo tem plantão do Departamento Jurídico em 27 de fevereiro



No dia 27 de fevereiro, sexta-feira, ocorreu na sede do Núcleo Sepe Rio das Ostras e Casimiro de Abreu mais um plantão do Departamento Jurídico com a presença do advogado do Sepe Central para tratar das demandas da categoria.



O Núcleo, como de praxe, recebeu a visita de professores para atendimento jurídico, diante da situação apresentada pelas diversas redes, com destaque para a questão do assédio moral, quando profissionais são perseguidos, principalmente, quando cobram seus direitos trabalhistas.



A pauta desta reunião deu continuidade às questões tratadas em outros plantões: 1) Situação dos professores grevistas da rede estadual que vêm sendo perseguidos com perda de origem e até processo de demissão; 2) Nova audiência no Fórum de Justiça sobre o processo do Sepe cobrando o cumprimento do 1/3 da carga para planejamento; 3) Reunião do Ministério Público contendo problemas da rede municipal de Rio das Ostras, como a contratação de novos contêineres; 4) Acompanhamento do processos de desconto em folha dos profissionais da mesma rede filiados ao Sepe, entre outras questões.



Só a luta transforma a vida!


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Por uma educação protagonista




Por Frei Betto


A educação crítica é o grande desafio nesse mundo hegemonizado pelo capitalismo neoliberal. Ela tem como princípio formar não apenas profissionais qualificados, mas cidadãos protagonistas de transformações sociais.
Ela extrapola os limites físicos da escola e vincula educadores e educandos a movimentos sociais, sindicatos, ONGs, partidos políticos, enfim, a todas as instituições que desempenham atividades de transformação social.
A educação crítica só se desenvolve em sintonia com os processos reais de emancipação em curso e as reflexões teóricas que fundamentam tais processos.
Deve levar em conta três tempos que se intercalam: das estruturas (mais longo); o das conjunturas (mais imediato e mutável); e o do cotidiano (no qual vivenciamos o conflito permanente entre a satisfação de interesses pessoais e a consciência das demandas altruístas).
O tempo das estruturas deve ser objeto da educação escolar. Ele nos remete à história da história, aos grandes processos sociais com seus avanços e recuos.
Quanto mais educadores e educandos são conscientes do tempo estrutural, mais se contextualizam e se compreendem como herdeiros de uma história que, entre dificuldades, avança da opressão à libertação.
Ter consciência do tempo das estruturas é ter consciência histórica e não se deixar afogar no mar de contradições dos tempos de conjunturas e do cotidiano. Cada um de nós é um pequeno elo na vasta corrente do processo social. Só tendo consciência da amplitude da corrente apreendemos a importância do elo que somos. Uma educação que não se abre para o tempo das estruturas corre o sério risco de ser cooptada pela estrutura mundialmente hegemônica.
O tempo das conjunturas é o das mutações cíclicas que produzem inflexões nas estruturas sem, no entanto, alterá-las substancialmente. O acúmulo de conjunturas influi na mudança do tempo das estruturas. O grande desafio é como se comportar em determinada conjuntura de modo a aprimorar ou transformar a estrutura.
O tempo do cotidiano é o do dia a dia, no qual trafegamos e tropeçamos, movidos por ideais altruístas, solidários e, ao mesmo tempo, atraídos pelas seduções do comodismo e do individualismo.
É no tempo do cotidiano que a educação atua e permite uma compreensão crítica da conjuntura e desperta o imperativo de se comprometer com a transformação da estrutura.
Nesse tempo cotidiano vivemos imersos, muitas vezes movidos por utopias libertárias e, ao mesmo tempo, desanimados ao reconhecer, a cada dia, que a matéria-prima do futuro é humana, sempre frágil, ambígua e contraditória.
A formação da consciência crítica e do protagonismo social resulta de um processo pedagógico que intercala os três tempos, de modo a evitar a mesquinhez de um cotidiano que nem sempre reflete os valores em nome dos quais o assumimos e queremos educar.

Diretoria do Sepe Núcleo Rio das Ostras e Casimiro de Abreu
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