sexta-feira, 3 de julho de 2015

ONU publica artigo técnico sobre maioridade penal no Brasil, ONU/Adital

Adital


O Sistema ONU no Brasil publicou neste mês de junho seu posicionamento oficial sobre a redução da maioridade penal. Intitulado"Adolescência, juventude e redução da maioridade penal”, o artigo técnico tem 12 páginas que exploram o tema, articulando áreas como direitos humanos, desenvolvimento sustentável e segurança pública.


Imagem: INESC


A redução da maioridade penal é tema de debate no Parlamento brasileiro a partir do Projeto de Emenda Constitucional, a PEC 171/93, que visa a alterar o artigo 228 da Constituição Federal brasileira de forma a estabelecer a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

O artigo do Sistema ONU afirma que a redução da maioridade penal opera em sentido contrário à normativa internacional e às medidas necessárias para o fortalecimento das trajetórias de adolescentes e jovens, "representando um retrocesso aos direitos humanos, à justiça social e ao desenvolvimento socioeconômico do país”.

A ONU no Brasil destaca que, "se as infrações cometidas por adolescentes e jovens forem tratadas exclusivamente como uma questão de segurança pública e não como um indicador de restrição de acesso a direitos fundamentais, o problema da violência no Brasil poderá ser agravado, com graves consequências no presente e futuro”.

No último dia 19 de junho, o coordenador residente da ONU no Brasil, Jorge Chediek, o representante do UNICEF no Brasil, Gary Stahl, e a representante auxiliar do UNFPA, Fernanda Lopes, se reuniram com o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha. No encontro, os participantes discutiram o agravamento da violência no Brasil e formas de colaboração entre ONU e Câmara dos Deputados em temas de relevância para o país.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) também se posicionaram separadamente contra a redução da maioridade penal.





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Brasil entre a desesperança e a inclusão

Por Emir Sader, no site Carta Maior

Poucas vezes um diálogo tão breve, transmito direto pela TV, revelou de forma tão significativa os dilemas e as interpretações contraditórias sobre o Brasil. Faustão no seu papel de propagandista do sentimento que a direita tenta impor ao país, tentou condicionar a resposta da Marieta Severo, com a palavra chave da oposição: desesperança.

A direita tem razão no sentido de que só se eles conseguirem convencer os brasileiros de que estamos mergulhados irremediavelmente – com este governo – na desesperança, é que eles podem ter alguma chance de voltar a dirigir o pais. O pior para eles desde 2012 não foi somente que os governos do PT demonstraram que o Brasil é um pais viável, que a desigualdade não é um destino inevitável, mas que os brasileiros voltaram a confiar no pais, a ter auto estima, a se orgulhar de ser brasileiros.

Nesse quadro, a direita não tem possibilidade de retornar ao governo. É preciso voltar ao clima do Collor e do FHC, de degradar a imagem do Brasil, aqui e lá fora, principalmente na cabeça dos próprios brasileiros. A mídia difunde versões diárias, do pessimismo, da desesperança, do circulo vicioso, do túnel sem fim. É o seu papel, como órgão oficial da direita, das políticas anti-populares.

O Lula é o seu inimigo privilegiado, não apenas porque nos seus governos o Brasil viveu o melhor momento da sua história recente, como também porque ele representa a auto-estima dos brasileiros, a confiança no povo brasileiro, a esperança de que o pais tem todas as condições de dar certo, de que o povo é solução e não problema – como o Lula gosta de reafirmar. Tentar destruir essa imagem é tentar destruir a auto-estima dos brasileiros, tentar dizer que tudo é igual, nada é melhor – como canta o tango Cambalache.

Marieta respondeu, altiva, com a outra visão do Brasil. O fenômeno fundamental do Brasil neste século é a inclusão social. É o Brasil dos direitos e não o da concorrência de todos contra todos no mercado. 

Inclusão significa que todo ser humano tem direitos, que a democracia deve ser o regime que torne todo indivíduo um cidadão, isto é, um sujeito de direitos. Desesperança significa que a democracia não é capaz de propiciar isso para todos e que portanto o país deveria se entregar de novo nos braços do mercado, do FMI, da direita e seus porta-vozes.

Essa é a luta fundamental de hoje no Brasil – saber se o Faustão e a sua desesperança tem razão ou se continuaremos o caminho da inclusão social e a Marieta tem razão.

O jogo está aberto de novo, depois de termos trilhado um caminho seguro da inclusão social como o nosso norte durante 12 anos. O ajuste fiscal tem sido um tiro no pé do Brasil da inclusão social, tem nos levado para o pior dos mundos possíveis: recessão com exclusão de direitos, com aumento do desemprego e da inflação e com ofensiva desestabilizadora da direita.

Mesmo quem julgue que algum tipo de ajuste é necessário, ele não pode ser socialmente injusto – recair nos trabalhadores -, nem economicamente inviável – não tem levado à retomada do crescimento – e não deveria ser politicamente desastroso – tirar apoio do governo justamente quando ele é alvo de sistemático ataque desestabilizador da direita.

Deve unir a todos os que querem a retomada do caminho da inclusão social, para o que a fortalecimento do governo é condição indispensável, aos que creem que um ajuste é necessário e aos que creem que ajuste nunca é e nunca leva ao desenvolvimento - a unidade para o fortalecimento e a recuperação de iniciativa do governo. Para isso, o ajuste tem que deixar de ser a pauta central do governo, os direitos dos trabalhadores tem que ser efetivamente garantidos, deve haver a centralidade da luta pela retomada do desenvolvimento e do combate ao desemprego.

Se o governo não está conseguindo retomar a expansão econômica – e não há nenhum sintoma disso até agora – e tem sido incapaz de conter o aumento do desemprego, o caminho escolhido tem que ser corrigido. A centralidade, na hora da crise, deve ser a defesa dos direitos de todos e não o ajuste.

No embate para saber se nos tornamos o pais da desesperança ou se seguimos sendo o pais da inclusão social, está o enfrentamento maior hoje. O governo tem que reafirmar o caminho da inclusão social e combater firmemente a desesperança. Contará com o apoio indispensável dos brasileiros, fundamental quando sofre sistemático e brutal ataque desestabilizador da direita.

Pela boca subserviente do Faustão falou a direita oligárquica. Pela boca altiva da Marieta, falou a esperança do povo brasileiro.


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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Grito dos Excluídos/as:unir os generosos/generosas para a construção do reino


Por Grito dos Excluídos/as

Este texto integra um conjunto de seis eixos trabalhados em coletivo como base para o Grito dos Excluídos/as deste ano de 2015. Até o dia 7 de Setembro outros eixos serão amplamente divulgados.

O Grito dos Excluídos/as, que acontece anualmente no dia 7 de Setembro em todo o Brasil, chega a sua 21ª edição. Em 2015, o lema chama a atenção para a situação de violência que vitimiza, sobretudo as juventudes das periferias, bem como alerta para o poder que os meios de comunicação exercem na manipulação da sociedade. E questiona: "Que país é este que mata gente, que a mídia mente e nos consome?”. E mais uma vez o tema do Grito aponta para a perspectiva da "Vida em primeiro lugar”, uma exigência do Reino de Deus.

A proposta do Grito surgiu da esperança e do espírito profético dos cristãos que, aliados aos movimentos sociais, buscaram continuar pautando a reflexão proposta pela Campanha da Fraternidade de 1995, cujo tema era "Fraternidade e Exclusão”. Assim, nestes 21 anos de história, o Grito vem se desenvolvendo como um processo e compromisso coletivos.

Contudo, a missão profética sempre se renova porque, infelizmente, ainda temos situações que clamam o pronunciar-se das forças sociais sustentadas pelo compromisso com a dignidade da vida e da construção de um projeto popular para o Brasil. O apelo profético tem o viés da denúncia, pois não é possível calar-se diante da vida maltratada, do drama dos outros, como se não fosse nossa responsabilidade, segundo o alerta do Papa Francisco (Cf. EG 54).

Tem também o viés propositivo, ou seja, a convicção de que é possível seguir outro caminho. Os debates da 5ª Semana Social Brasileira propondo outro Estado, compreendendo também outra sociedade, a sociedade do Bem Viver, insistiam neste viés propositivo, explicitado nos dez pontos da carta final do Seminário Nacional realizado nos dias 02 a 05 de setembro de 2013.

As intuições destes anos de caminhada continuam muito vivas e presentes para as forças sociais. Foram incorporadas por novos atores sociais com os quais somos chamados a dialogar. Temos a tarefa de reforçar o processo, unir os generosos e generosas, os bem-aventurados e bem-aventuradas (Cf Mt 5,1-12) que vivem a cada dia o compromisso da superação da miséria e exclusão. Os tempos atuais exigem a atualização das metodologias sem que esta faça arrefecer o compromisso social e luta pelos direitos. A crise que o Brasil atravessa, que vai além da economia, cobra esta atitude. Neste sentido três ações são urgentes:

1- Aprofundar o diálogo entre as pastorais e movimentos sociais, partindo de elementos que conjuguem forças, conteúdos e metodologias. Algumas pautas favorecem este processo e são de interesse mútuo. Toda a movimentação em vista dos diálogos do Papa com o Movimento Popular revelam a fertilidade deste caminho.
2- Favorecer o diálogo ecumênico e inter-religioso mediado por ações concretas voltadas aos excluídos da sociedade, um diálogo de ação e metodologia que possa acolher toda a riqueza mística e espiritual das Religiões.
3- Atualizar o mapa das nossas forças sociais, visto que as diferentes manifestações que vêm desde 2013, somadas a um projeto de poder divorciado dos anseios populares, geraram dificuldades para analisarmos o novo perfil da sociedade. Esta dificuldade não se resolverá facilmente. Contudo, faz-se necessário enfrentarmos este dilema em nome do compromisso que nos motivava a assumir o primeiro Grito dos Excluídos.

Jesus começou a sua missão na periferia da Palestina. Ali estavam seus pés e o seu coração (Mt 11, 25ss). No entanto, não esqueceu o motivo da sua missão (Lc 4, 11ss), fundamento do Reino desejado por Deus, que começa pela vida plena e digna para todas as pessoas mediada pela garantia de seus direitos.

Neste sentido, se faz necessário unir os generosos e generosas nessa empreitada, um dos eixos que norteiam o Grito desse ano. Bem como denunciar e desmentir a mídia que defende os interesses das classes dominantes e exigir que o Estado assuma suas responsabilidades na garantia de direitos dos seus cidadãos e cidadãs.


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A serpente sem casca

Por Roberto Amaral


A característica do ovo da serpente é a quase transparência de sua membrana, o que permite a quem o observe, conhecendo o embrião, antever a peçonha que, adulta, poderá picá-lo. Trata-se de bela e precisa imagem, que nos lembra, no presente, o que o futuro nos pode ameaçar. Ao observador sempre caberá a decisão de interromper ou não a gestação. Mas, a partir do conhecimento da ameaça, não mais lhe será dado o direito de, amanhã, ferido o calcanhar, arguir surpresa. Como na vida social, ao não intervir, o sujeito histórico opta pela cumplicidade.

Ingrid Bergman, em filme notável, descreveu a vida do pós Primeira Guerra Mundial, o encontro da Alemanha com a República e a democracia representada pela Constituição de Weimar, mas, igualmente, a Alemanha dos ‘loucos anos’, de hiperinflação, fracasso industrial, desemprego, antissemitismo e xenofobia. Não por outro motivo o denominou de O ovo da serpente. Enxergava, naqueles tempos, o prenúncio que mais tarde conheceríamos como nazismo.

Lembro a onda absolutista-autoritária de desrespeito aos direitos humanos, à liberdade, que, intoxicada de violência e xenofobia, construiu a Segunda Guerra Mundial. Vimos naquela altura a construção do nazismo, do franquismo, do salazarismo, do stalinismo e da loucura em que se transformou o feroz império japonês. Sabemos que preço foi pago.

O movimento social, que se propaga em ondas, muitas vezes se processa em subterrâneos que não nos é dado pressentir. Nas vésperas do famoso maio de 1968, Daniel Conh-Bendit reclamava da pasmaceira da vida universitária francesa. Imprevistos foram a queda do Muro de Berlim, o suicídio da URSS e, respeitadas as distintas proporções, as jornadas brasileiras de junho de 2013, detonadas por aumento de alguns centavos nas passagens de ônibus em São Paulo. Tais fatos e movimentos, alguns de caráter revolucionário, não foram construídos. Explodiram. Hoje, antecipa o amanhã. Sem forma exata.

Nos tristes idos de 1954, a sociedade brasileira foi despertada para um ‘mar de lama’ que correria nos inexistentes porões do Palácio do Catete. A onda anti-varguista era promovida por uma oposição competente tanto quanto vituperina e inescrupulosa, que compreendia o Congresso, os partidos e, principalmente, a imprensa, atuando em concerto. Naquele então como agora. A deposição de Vargas passou a ser o alvo, o atentado, o grande pretexto. O desfecho faz parte da História.

Nos tristes idos dos anos sessenta, muitos liberais e democratas, que não haviam lido Brecht, engrossaram os arreganhos da direita que prometia cadeia para os comunistas e os corruptos, ‘encastelados no governo Jango’, cuja posse não haviam conseguido impedir em 1961. Nos primeiros momentos da ditadura, revelados seus propósitos, ainda assim nossos liberais não se sentiram ameaçados. Mas, insaciável, o dragão devorou todos.

O processo histórico não se move como uma equação algébrica ou uma lei da física. Não há leis determinando os fatos. Mas seu conhecimento ilumina ao caminhante as frentes por percorrer no presente.

Com a conhecida imagem do ovo da serpente procuro significar que estão dadas, para quem quiser ver, as condições para um perigoso processo de ruptura do pacto social que possibilitou a Constituinte quase progressista de 1988, agredida em seus aspectos mais socialmente avançados já a partir de sua promulgação, indicando de logo a resistência dos setores conservadores. Esse processo desconstitutivo atinge o paroxismo na atual legislatura parlamentar. Se o Congresso que aí está legitima os atos de seus líderes – evidência clara como a luz do sol – resta-nos a amarga indagação se esse caminhar representa também o pensamento majoritário de nossa sociedade. Se a conclusão plausível é pela coerência entre o pensamento social e a ação retrógrada do Congresso, perguntar-se-á, como desafio: como explicar as transformações que revelam o Brasil na contramão do avanço social medido a partir da redemocratização e da da Constituição de 1988?

O País vinha, conquista após conquista, avançando numa trilha iluminada por valores democráticos e progressistas. Um novo Brasil parecia nascer com as vitórias eleitorais da oposição; tinha-se a sociedade majoritariamente identificada em torno das campanhas contra a Tortura, pela Anistia, pelas Diretas-já, unificada na eleição indireta de Tancredo, no impeachment contra Collor e finalmente, nas eleições e reeleições de Lula e Dilma Rousseff. E no apoio popular a seus governos. Como explicar a crise de hoje, cujo ponto de partida é a desconexão entre o voto que escolhe o presidente e aquele que, na mesma eleição, preenche as cadeiras da Câmara dos Deputados? Como explicar que o mesmo eleitorado, na mesma eleição, consagre um candidato a presidente e eleja um Congresso que lhe será hostil?

O que pretendo pôr de manifesto é o subterrâneo da crise política, a saber, a falência do modelo de política e do modelo de Estado. Trata-se do fracasso do processo político eleitoral proporcional, fundado na farsa, na manipulação do poder econômico – que a direita quer aprofundar facilitando a contribuição financeira de empresas nas campanhas eleitorais e no financiamento de partidos e candidatos –, na manipulação do poder político, que distorce a vontade eleitoral. Trata-se da exaustão do ‘presidencialismo de coalizão’. Trata-se da necessidade de reforma de um Estado concebido para não funcionar, senão como conservador dos interesses da classe dominante.

A contrapartida do Estado infuncional é a incapacidade governativa, derivada do pacto imposto pelo ‘presidencialismo de coalização’, mas é igualmente a consequência de uma estrutura montada para impedir o fazer. Vivemos formal e objetivamente a grande crise constituinte, que nasce com o Estado brasileiro e a Carta outorgada de 1824.

Mas ainda não é tudo.

Fruto ou causa dessa ascensão conservadora, vivemos o encontro do esvaziamento da sociedade organizada – dominada por um certo niilismo – com a crise das instituições da República. O povo se ressente do Estado que não lhe assegura os serviços de que carece; não se identifica com o Poder Legislativo, que só legisla segundo os interesses dos parlamentares, e ao fim e ao cabo se sente frágil, à míngua de direitos diante de um Judiciário incompetente, de um ‘sistema’ que só pune os pobres. Dessa sociedade não se pode esperar a defesa da política, que jamais foi a forma de realização de seus interesses. Mas do progresso não pode cuidar a classe dominante, beneficiária e sócia de todos os desarranjos que contaminam a política e a coisa pública, privatizada, pois, na medida em que fracassam os meios republicamos, crescem as negociações de cúpula, no vértice do poder presidencial, onde se encontram líderes políticos e os representantes do grande capital.

A crise da política é a crise da representação que ilustra a crise constituinte, peças da grande crise do Estado, desaparelhado para gerir a sociedade emergente em meio à crise econômica alimentada por fatores internos e exógenos, condicionada pelos humores políticos e financeiros da globalização, um bem-sucedido projeto de poder das potências.

O plano interno parece repetir os ventos que sopram das metrópoles, com o avanço do pensamento e da prática de direita, que hoje domina a Europa, com a falência dos partidos socialistas e comunistas e a rendição de socialdemocracia. Aqui, com a renúncia da socialdemocracia que se transforma no baluarte do pensamento e da ação de direita, a falência dos partidos do campo da esquerda, o recuo do movimento social como um todo, notadamente do sindical, contido em reivindicações econômicas. Desapareceram as lideranças liberais e os quadros de esquerda minguam, como minguam as instituições e as lideranças da sociedade. É nesse vácuo – e não obstante o fracasso do neoliberalismo que detonou a crise econômica – que, lá e cá, crescem as forças da reação, do conservadorismo e da xenofobia. Mas não só o conservadorismo político-congressual-partidário, mas o pior de todos, o conservadorismo na sociedade.

Vínhamos de 12 anos de relativo sucesso de uma sequência de governos de centro-esquerda, que possibilitou a entrada de mais de 40 milhões de brasileiros na economia e no consumo, promovendo a mais notável ascensão social da história republicana. Hoje, esse governo sofre um cerco sem similar na história recente, hostilizado pelos meios de comunicação, hostilizado pelo mais poderoso partido político da República (que participa do governo e comanda sua política...), hostilizado pelo Congresso (presidido pelo mesmo partido), finalmente, e por tudo isso, hostilizado na ruas.

Esse quadro ensejou a realização de um ‘especioso golpe branco’, volta a repeti-lo, de que resultou a instalação, em pleno presidencialismo, de um ‘parlamentarismo de fato’, mostrengo híbrido que, avançando sobre os poderes da presidência da República, agrava a ineficiência do Estado e aprofunda a crise política. Pois, presidido por um premier comprometido com o atraso fundamentalista de origem evangélico-pentecostal, governando contra o Executivo, o Parlamento cria dificuldades às nossas negociações com o governo chinês – de quem muito dependemos para sair da crise, via investimentos em nossa infraestrutura –, cria dificuldades à nossa participação no banco de investimentos que reúne a China e países europeus da área do euro, dificulta a vida dos BRICS, intenta desconstituir o Mercosul e torpedeia nossa política externa.

É o nosso tea party. No plano social, impõe a pauta do atraso, que compreende a diminuição da menoridade penal, a diminuição da menoridade para o ingresso no trabalho, a precarização do trabalho, a terceirização, o armamentismo, a intolerância à livre manifestação de crenças e credos e os diferentes tipos de discriminação.

Estamos diante do ovo da serpente, que nos antecipa, no presente, o que o futuro no reserva. Resta-nos enxergar as saídas que nos distanciem da premonição do que está sendo gestado. Esse o nosso desafio.


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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Conversando com versos (150): "Da mais alta janela da minha casa", de Fernando Pessoa (1888-1935)



“Da mais alta janela da minha casa”
Fernando Pessoa 


DA MAIS ALTA janela da minha casa 
Com um lenço branco digo adeus 
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste. 
Esse é o destino dos versos. 
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 
Porque não posso fazer o contrário 
Como a flor não pode esconder a cor, 
Nem o rio esconder que corre, 
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência 
E eu sem querer sinto pena 
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá? 
Quem sabe a que mãos irão?

Flor,colheu-me o meu destino para os olhos. 
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas. 
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim. 
Submeto-me e sinto-me quase alegre, 
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim! 
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. 
Murcha a flor e o seu pó dura sempre. 
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.


Fonte: Pessoa, Fernando. Obra poética. 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1983, p-161

Os novos hábitos do leitor no Brasil


Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:


Os habitantes das grandes cidades brasileiras são os maiores usuários de redes sociais como meio de acesso a informações. Esse é um dos achados de um estudo encomendado pelo Instituto Reuters, da Inglaterra, à empresa de pesquisas YouGov, intitulado “Relatório de Notícias Digitais 2015”.

Os brasileiros urbanos de renda alta lideram a crescente tendência mundial de migração para os meios digitais que produzem conteúdo jornalístico, em detrimento da mídia tradicional.

A Folha de S. Paulo traz na edição de terça-feira (23/6) uma reportagem curta sobre o assunto, mas o autor do texto selecionou um aspecto mais otimista, do ponto de vista do jornal, no qual se afirma que os brasileiros são mais afeitos a pagar por notícias online.

“Os consumidores do País lideraram nessa categoria (23%), superando os finlandeses (14%), que ficaram em segundo lugar”, diz o jornal paulista. Segundo essa interpretação, “um em cada quatro brasileiros pagaram (sic) para acessar notícias online no ano passado”.

A versão da Folha induz o leitor a engano, porque a pesquisa não se refere a toda a população brasileira, mas apenas aos mais ricos e conectados entre os habitantes das grandes cidades. Portanto, afirmar que 23% dos brasileiros pagaram para acessar informação nos meios digitais é errado.

A verdade é muito mais dolorosa para a mídia tradicional: uma das principais conclusões do estudo é que se acelerou em todo o mundo a preferência por obtenção de notícias em plataformas sociais e móveis.

O cidadão urbano de alta renda e usuário intenso das tecnologias digitais de informação e comunicação – fração da sociedade observada pela YouGov – adere rapidamente e massivamente a fontes de informações imediatas, que tenham sido de alguma forma avalizadas socialmente, e que possam ser acessadas a qualquer momento.

Mas, de modo geral, três quartos dos entrevistados (74%) ainda leem jornal de papel ou online pelo menos uma vez por semana, e 89% mantêm o hábito de se informar por emissoras tradicionais, no rádio, televisão ou internet.

O cenário global mostra a queda contínua da leitura e venda de jornais de papel na maioria dos países, ao mesmo tempo em que não se observa um aumento da disposição de pagar por notícias nos meios digitais. Na Inglaterra, apenas 6% dos cidadãos mais conectados aceitam pagar por informação jornalística em seus aparelhos de comunicação móvel ou nos cada vez menos usados computadores de mesa.

A influência das redes sociais

Entre os brasileiros, 23% dos entrevistados disseram ter pago por notícias online em algum momento no ano passado e 43% se declaram dispostos a repetir a prática no futuro. Em geral, homens com idade entre 25 e 34 anos são mais simpáticos à ideia de investir em conteúdo jornalístico no Brasil.

Também é considerável o hábito de compartilhar informações nas redes sociais no público consultado (47% do total), sendo mais acentuado entre as mulheres (49%) e pessoas com mais de 55 anos (52%).

As marcas online mais valorizadas pelos brasileiros, segundo a pesquisa, são o portal G1, do grupo Globo, com 38% da audiência, seguido pelo UOL, do grupo Folha, com 34%, e R7, do grupo Record, com 31%. O portal do jornal O Estado de S.Paulo, com 12% da preferência, é a 13ª marca mais apreciada, entre as 16 citadas, ficando acima apenas do iG, CNN e BBC.

Nessa vanguarda de usuários mais intensos de mídias digitais, as mídias tradicionais apresentam um quadro curioso: as mais citadas são a GloboNews (50%), o Jornal do SBT (40%), a Record News e BandNews (ambas com 33%).

Jornais de papel, como a Folha de S. Paulo (24%) e O Estado de S. Paulo (17%) estão entre os menos citados. As marcas da Editora Abril, como a revista Veja, não são lembradas.

Um aspecto da pesquisa que as empresas de comunicação poderiam comemorar é a questão da confiança: nada menos do que 62% dos cidadãos de renda mais alta disseram acreditar na mídia informativa em geral, e 70% declaram confiar nas suas fontes prediletas. Mas o cruzamento dos dados mostra que há uma forte influência das interações sociais nessa confiança, ou seja, o compartilhamento das informações nas redes sociais – formadas por grupos muito homogêneos – funciona como aval para essa credibilidade.

Os brasileiros não apenas aderiram fortemente ao WhatsApp, como são os maiores usuários do Facebook, e gastam nas redes sociais 60% mais de tempo do que a média mundial. Portanto, a confiança no noticiário é fortemente consolidada pelo aval dos grupos de relacionamento.

Os dados originais da pesquisa podem ser acessados, em inglês, no site do Instituto Reuters (ver aqui).



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terça-feira, 30 de junho de 2015

Repetindo verdades

Por Wladimir Pomar
Há muito se repetem as críticas ao PT quanto à necessidade dele retomar seu papel hegemônico na esquerda brasileira, mudando sua estratégia política, seus métodos de organização e de funcionamento interno, seu estilo de trabalho e suas relações com o governo federal e com os governos estaduais e municipais que formalmente dirige.
A maioria da direção do PT, no entanto, sempre fez ouvidos de mercador a tais críticas e sugestões correspondentes, que não são individuais. Críticas idênticas têm sido veiculadas, também há muito tempo, por dirigentes e militantes do PT, das mais diversas correntes internas. Não é novidade que a atual direção petista até critica fatos do passado, mas não discute o presente, embora prometa mudanças para o futuro, sem indicar quais serão.
A novidade da semana é que a tais críticos se juntou ninguém menos do que o próprio Lula. Sem poupar ninguém, como publicaram os jornais, o principal líder do PT generalizou as bordoadas ao afirmar que “os petistas só pensam em cargos, em empregos e em serem eleitos”, o que pode ser verdade para alguns, mas não para a maioria dos petistas.
Lula também cunhou uma imagem forte, baseado na condição real dos reservatórios de água de São Paulo, sobre a situação em que ele, Dilma e o PT se encontram. Segundo ele, Dilma e ele estariam no “volume morto”, enquanto o PT já estaria “abaixo” desse volume. Para ser franco, Lula reconheceu o que muitos petistas já falavam há muito tempo. Para esses petistas, que quase se cansaram de chamar atenção para a tragédia que ronda o PT, não é novidade que seus companheiros no governo parecem um bando de cegos, surdos e mudos, que Dilma não viaja pelo país e não sabe falar para o povão e que a inatividade do governo é evidente.
Lula também reconhece que o problema principal reside no PT. No entanto, parece acreditar que a recuperação do partido depende do governo, que teria melhores meios para isso, através de realizações, inaugurações, e da discussão política, com seus ministros viajando e indo para a rua. Porém, talvez não tenha levado em conta que a discussão política de hoje, nas ruas, na imprensa, e em qualquer canto desse país, consiste em falar sobre desemprego, juros altos, custo de vida em elevação, corte de verbas na educação e na saúde (que teriam se tornado um “caos”, segundo a grande imprensa) falta de investimentos em transportes públicos, saneamento etc. etc. etc. E corrupção, corrupção, corrupção.
Bem vistas as coisas, o que Dilma e seus ministros têm a falar nas ruas? Repetir o que o ministro Levy fala o tempo todo? Isto é: “o ajuste é para retomar o crescimento”. Ou eles têm outro caminho a propor e não pretendem arriscar o cargo, a exemplo do ex-ministro Cid Gomes?
A única maneira de recuperar as ruas e travar o debate político consiste em discutir como realizar um cavalo de pau no atual plano econômico do governo e retomar o caminho do desenvolvimento. Somente dessa forma será possível transformar não só a Educação, mas também a Saúde, o Saneamento, o Transporte Urbano e Suburbano, a Agricultura Alimentar, a Moradia, os Salários e outras coisas hoje reclamadas abertamente pelo povão, como pontos fortes no debate político.
Além disso, tem algo do necessário debate político que não depende do governo, que é a discussão sobre corrupção. Lula tem razão em dizer que essa é uma discussão eminentemente política, pois se trata de retomar a prática petista antiga de ser contra, em tese e na prática, as contribuições de empresas privadas ao partido, mesmo que legalmente tais contribuições possam ser aceitas. Se o PT não tomar decisões fortes a respeito, não reconhecer que caiu na tentação legal de receber tais contribuições, criando condições para que alguns dirigentes e militantes as aceitassem sem verificar sua origem, ou mesmo se utilizassem de sua influência para que elas fossem realizadas, tudo o mais que fizer parecerá hipocrisia pura.
É evidente que o “mensalão” foi uma invenção. Se a compra de votos parlamentares tivesse realmente existido, o STF teria o dever de ter cassado a maior parte dos mandatos parlamentares, já que todos os projetos do governo aprovados pelo parlamento teriam que ser enquadrados no referido “crime”. No entanto, essa aberração jurídica e também política ocorreu porque o sistema de captação de recursos empresariais para as campanhas eleitorais do PT, imitando o que ocorria na maior parte dos demais partidos, transformou-se num negócio escuso.
Assim, mesmo que nenhum dos condenados no “mensalão” tenha captado recursos para enriquecimento próprio, a aceitação do método “negocial” há muito utilizado pelos políticos da burguesia foi um erro político grave, que criou uma crise institucional e abriu uma brecha enorme para ataques ao PT. Brecha que continuou crescendo à medida que a direção do partido não teve a coragem necessária para proibir que tal prática, embora legal, continuasse.
Embora Lula não haja aproveitado o quinto congresso do PT para dizer as verdades há muito repetidas por grande parte da militância petista, é positivo que tenha, com sua autoridade política, colocado o dedo nas feridas que estão sangrando o PT e o governo. É quase certo que quem quer ver o PT retomar suas antigas bandeiras de luta espera que Lula não pare por aí. Faz bem repetir verdades.


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